Kṛṣṇa-bhāryā Dāsī (HDG)

A tradição Gaudiya Vaishnava apresenta diversos exemplos de gurus mulheres que deram iniciação (diksha) aceitando formalmente discípulos, concedendo-lhes um mantra sagrado e guiando-os em direção à libertação e ao despertar espiritual. Muitas mulheres extraordinárias romperam com convenções materiais para saborear a doçura de Bhakti –Yoga (o Yoga da Devoção descrito na Bhagavad-Gita por Krishna e em quase toda literatura Vaishnava). Mulheres que serviram como acharyas, pioneiras na disseminação da Consciência de Krishna instituída pelo Senhor Chaitanya Mahaprabhu (1486-1534).
Dentre uma das mais ilustres, que rompeu com todas as designações corporais de gênero, status social e idade está Srimati Gangamata Gosvamini. Uma princesa, herdeira de um reino, o qual ela recusou devido ao intenso desejo de servir a Krishna e aos seus devotos.
Breve Biografia de Gangamata Gosvamini
Antes de ser conhecida como Gangamata Giswamini, a Princesa Saci-devi (1601 -1721), era a filha única do Rei Naresh Narayana de Bengala. Saci iniciou sua educação ainda jovem, dominando primeiro a gramática e a poesia, e após conheceu profundamente as escrituras. Desde a sua infância, mesmo sendo uma princesa que vivia cercada de luxo e opulência, ela demonstrava mais apego à Deidade do Senhor Madana Gopala, sem interesse algum por casamento ou assuntos da realeza, mesmo sendo uma princesa muito bela.
Com o falecimento de seus pais, ela transferiu o governo do reino a familiares, renunciou à sua herança e saiu em peregrinação a pé até a terra sagrada de Vrindavan Dham (aproximadamente 1.000 km de distância, o que resulta em uma estimativa de 15 dias caminhando sem dormir).

Fonte: A revista Back to Godhead
Iniciação Espiritual com Haridasa Pandita
Quando chegou em Vrindavan, Saci-devi ficou impressionada com o poder espiritual de Srila Haridasa Pandita Gosvami (um discípulo proeminente de Sri Ananta Acharya (que era um associado direto do Senhor Chaitanya Mahaprabhu) e buscou seu abrigo espiritual, desejando ser sua discípula. Como Saci era uma princesa muito bela e acostumada com o conforto da vida na realeza, Haridas Pandit testou sua sinceridade, dizendo-lhe: “Não é fácil para a filha de um rei viver em Vrindavana como uma humilde devota, com pouco para comer e sem conforto. Seria melhor para você ficar em casa e adorar.” Saci não se abalou e continuou determinada a adotar uma vida de renúncia sem voltar ao reino e seguir prestando serviço a Krishna em Suas terras sagradas. Assim, Saci passou a executar austeridades, descartou suas vestes e ornamentos reais, vestiu roupas simples, e colocou-se a serviço de seu guru.
Haridas Pandit vendo sua determinação e sinceridade a instruiu a renunciar a tudo e viver como uma devota, vagando por Vraja, pedindo esmolas. Prontamente Saci seguiu as ordens de seu mestre, dormia às margens do rio Yamuna, purificava templos, circundava lugares sagrados e assistia a palestras sobre o Srimad-Bhagavatam. Sua devoção e austeridade impressionaram os moradores de Vrindavana.
Então, Haridas Pandit constatando sua determinação e devoção a iniciou na adoração de Radha-Krishna e a instruiu a estudar as escrituras profundamente. Assim, ela vivia em uma cabana, vestia roupas rasgadas, mendigava por comida (madhukari) e realizava intensos bhajans. Sua beleza logo se debilitou devido às rigorosas austeridades, mas seu coração ardia em êxtase espiritual. Haridas Pandit tinha outra discípula, Laksmipriya, que cantava trezentos mil nomes de Krishna diariamente. Ele enviou Laksmipriya para auxiliar Saci em suas práticas em Radha-kunda. Juntas, Saci e Laksmipriya circundavam a colina de Govardhan diariamente e viviam uma vida de intensa devoção.
Revitalização do Templo de Radha-Kanai Mandir em Puri
Reconhecendo seu avanço espiritual, seu guru ordenou que ela viajasse para Jagannatha Puri Dham para restaurar a morada abandonada de Srila Sarvabhauma Bhattacharya (o grande discípulo de Chaitanya Mahaprabhu), conhecida como Radha-Kanai Mandir. Quando Saci chegou lá, o templo estava em ruínas e o culto havia cessado completamente. Através de seu intenso serviço e devoção indesviável a Radha e Krishna, ela revitalizou o templo, estabeleceu padrões rigorosos para o culto à Deidade e começou a ministrar aulas profundas sobre o Srimad Bhagavatam. Eruditos, reis e os moradores de Puri ficaram fascinados por suas explicações sobre a filosofia Gaudiya. Logo, milhares vieram buscar refúgio aos seus pés de lótus e ela iniciou muitas almas sinceras na fé Vaishnava.
Sua fama logo se espalhou, e até mesmo o Rei Mukunda Deva de Jagannatha Puri veio ouvi-la falar. Profundamente impressionado, ele desejou oferecer-lhe algo em agradecimento. Naquela noite, o Senhor Jagannatha apareceu ao rei em um sonho, instruindo-o a oferecer a Saci um lugar às margens do Ganges. Embora Saci inicialmente relutasse em aceitar, acabou concordando, não querendo desobedecer ao desejo do Senhor. O rei nomeou um ghat sagrado às margens do Ganges em sua homenagem, reconhecendo-a como uma princesa que renunciou a tudo para difundir os ensinamentos de Caitanya Mahaprabhu.

Sveta Ganga em Jagannatha Puri, Índia, perto da residência de Sarvabhauma Bhattacarya, onde Gangamata Gosvamini realizou bhajans.
Fonte: PureBhakti.com
Como Saci passou a ser chamada de Gangamata Gosvamini
Saci devi observava rigorosamente todos os seus votos espirituais. Certo ano, no auspicioso dia de Maha-Varuni Snana, ela desejou banhar-se no sagrado Ganges. Contudo, residia em Puri e estava presa aos seus votos de bhajan, o que a impedia de viajar para a Bengala.
Naquela noite, o misericordioso rio Ganges, reconhecendo o desejo de sua devota pura, escolheu fluir diretamente pelos pés do Senhor Jagannatha e para o tanque Śveta-gaṅgā dentro do complexo do templo de Puri. À meia-noite, Saci-devi foi entrar na água. As correntes do Ganges subitamente aumentaram, arrastaram-na e a levaram diretamente para o santuário interno (garbha-griha) do Templo de Jagannatha. Os portões do templo estavam trancados, mas Saci-devi permanecia lá dentro, completamente encharcada e absorta em êxtase diante do Senhor Jagannatha.
Na manhã seguinte, os sacerdotes do templo abriram as portas e ficaram chocados ao encontrar uma mulher dentro do santuário trancado. Presumindo que ela fosse uma ladra, eles a aprisionaram. Contudo, naquela mesma noite, o Senhor Jagannatha apareceu em sonho tanto para o Rei de Puri quanto para o sacerdote que cuidava do templo. O Senhor declarou com ira:
“Libertem imediatamente a Minha devota! Fui Eu quem a trouxe para dentro. O Ganges veio servi-la, e vocês a trataram como uma criminosa. Vão, implorem pelo seu perdão e recebam iniciação dela.”
O rei e os sacerdotes correram para a prisão, prostraram-se aos pés de Saci-devi e imploraram por misericórdia. O rei, arrependido, libertou-a e solicitou sua iniciação. Em um dia auspicioso, Saci iniciou o Rei Mukunda Deva no mantra de Radha-Krishna. A partir daquele dia, como a Mãe Ganga viera pessoalmente encontrá-la, ela ficou eternamente conhecida como Gangamata Gosvamini.
Certo dia, um brâmane erudito chamado Mahidhara Sharma visitou o Ganges para realizar ritos para seus ancestrais. Ao ouvir falar das glórias de Gangamata Goswamini, buscou suas bênçãos. Ela lhe explicou o siddhanta do Srimad-Bhagavatam, e ele ficou cativado por sua sabedoria. Gangamata Goswamini o iniciou no mantra de Radha-Krishna e seguindo suas ordens, Mahidhara Sharma difundiu os ensinamentos de Gaura-Nityananda por toda Bengala.
O caso de Gangamata Gosvamini é mais uma confirmação de que uma mulher pode ser uma guru em uma linha Gaudiya Vaisnava genuína. Até seu ponto, a linha era genuína porque seu guru foi confirmado por Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami no Caitanya-caritamrta (Adi 8.60). Sua aceitação de discípulos é confirmada no Gaudiya-vaisnava abhidhana (págs. 1197-98) e pelo atual mahanta, Balarama Das Gosvami, no Gangamata Gosvamini Matha em Puri.
Algumas Reflexões sobre o Exemplo de Gangamata Gosvamini
Srimati Gangamata Gosvamini absorveu por completo os ensinamentos do Senhor Chaitanya Mahaprabhu. Ela aplicou integralmente a seguinte declaração do Senhor (CC Madhya 13.80):
nāhaṁ vipro na ca nara-patir nāpi vaiśyo na śūdro
nāhaṁ varṇī na ca gṛha-patir no vanastho yatir vā
kintu prodyan-nikhila-paramānanda-pūrnāmṛtābdher
gopī-bhartuḥ pada-kamalayor dāsa-dāsānudāsaḥ
“’Eu não sou um brâmane, não sou um kshatriya, não sou um vaishya ou um shudra. Nem sou um brahmacari, um chefe de família, um vānaprastha ou um sannyāsī. Identifico-me apenas como o servo do servo do servo dos pés de lótus do Senhor Śrī Kṛṣṇa, o mantenedor das gopis. Ele é como um oceano de néctar e Ele é a causa da bem-aventurança transcendental universal. Ele sempre existe com brilho.’”
Ela se despiu de toda a identificação material, orgulho por posição social e nascimento ou erudição e serviu com total a devoção aos servos de Radha e Krishna. Apesar de ter nascido na realeza, ela escolheu o caminho da austeridade e da completa entrega ao seu guru e ao Senhor Supremo. Ela também nos mostra que a verdadeira devoção transcende o status social e gênero, pois a graça do Senhor pode elevar um devoto sincero à posição mais elevada. O mais importante não é o tipo de corpo que o devoto habita e sim sua sinceridade e determinação em servir, independentemente dos desafios que enfrentamos.
Srimati Gangamata também serviu ao Senhor de acordo com a sua natureza, seguindo as instruções de Sri Krishna na Bhagavad-Gita (3.35):
“É muito melhor cumprir os deveres prescritos próprios, embora com defeitos, do que executar com perfeição os deveres alheios. A destruição durante o cumprimento do próprio dever é melhor do que ocupar-se nos deveres alheios, pois seguir o caminho dos outros é perigoso.”
Cada pessoa tem uma natureza única e habilidades específicas. Tentar assumir o papel ou o dever de outra pessoa gera conflito interno e desvio do seu próprio crescimento. Srimat Gangamata, embora tivesse nascido na realeza, ela não possui uma natureza psicofísica para administrar um reino, casar-se e se ocupar em outras atividades correlatas. Sua natureza era de renúncia e serviço exclusivo ao Senhor, casar-se e governar um reino iria torna-la infeliz, além de ser perigoso, pois ela tinha uma natureza bramânica.
Conforme significado de Srila Prabhupada para este verso, “um brāhmaṇa, que está no modo da bondade, não é violento, ao passo que o kṣatriya, que está no modo da paixão, tem permissão para ser violento. Por isso, para um kṣatriya é melhor ser subjugado seguindo as regras da violência do que imitar um brāhmaṇa que segue os princípios da não-violência”. E podemos concluir que o contrário também está correto, pois Srimat Gangamata tendo uma natureza bramânica, seria impróprio para ela exercer as funções de kṣatriya.
Ao mesmo tempo em devemos exercer nossas ações segundo nossa própria natureza, devemos fazê-las em Consciência de Krishna, com desapego ao resultado, sabendo bem que o mesmo pertence a Ele. Portanto, vamos sempre procurar exercer as atividades de maneira que possa agradá-Lo.
Oração a Gangamata Gosvamini
(Iskcon Vrindavan)
śrī-gangāmātā-gosvāminī-caraṇe parama-bhakti-prade
praṇamāmi nityaṁ kṛpā-sindhu-rūpiṇīm
“Ofereço minhas eternas reverências aos pés de lótus de Srimati Gangamata Gosvamini, o oceano de misericórdia que concede a mais alta plataforma de devoção pura!”