
Por: Kṛṣṇa-bhāryā Dāsī (HDG)
Srmati Janhava Thakurani foi uma das primeiras e mais importantes mulheres a atuar como dīkṣā-guru (mestra iniciadora) na tradição Gaudhya Vaishnava. Ela facilitou o acesso do Vaishnavismo às mulheres de uma forma que rompeu todas as barreiras, permitindo-lhes igualdade com os homens em termos de serviço, devoção, realizações e capacidade de ascender ao mais alto nível de perfeição.
Ela iniciou discípulos e formou gurus, homens e mulheres, e sob sua supervisão, estabeleceu-se a autoridade dos Seis Gosvāmīs de Vrindavana, garantindo que a filosofia do movimento Śrī Caitanya Mahāprabhu permanecesse coesa aos Seus ensinamentos originais, garantindo a transmissão fiel de conhecimento através do parampara. Conforme declaração de Srila Prabhupada, Ela controlou toda a comunidade vaishnava na época. Explanaremos mais como isso se sucedeu no decorrer deste artigo.
Breve Biografia de Jahnava Thakurani
Jahnava é comumente referida como Isvari, a forma feminina de isvara, ou Deus, Srimat ou Thakurani, denotando seu caráter de liderança entre os gaudyas vaishnavas do século XV. Seus pais se chamavam Suryadasa Sarakhela (Suryadasa foi contratado como contador/tesoureiro (sarakhela) no governo muçulmano da época) e sua esposa Bhadravati que viviam próximos à Navadvipa, em uma área chamada Shaligrama, situada no estado de Bengala Ocidental, na Índia. Eles tinham duas filhas, Vasudha e Jahnava, que era a mais jovem.
Conforme o Gaura-ganoddesha-dipika (65-66)[1], obra que descreve as identidades transcendentais dos associados do Senhor Chaitanya, que se acredita terem descido com Ele mundo espiritual, em suas encarnações anteriores, Vasudha e Jahnava foram as esposas de Balarama (irmão mais velho de Sri Krishna): Varuni e Revati. Além disso, o mesmo texto nos informa que Vasudha e Jahnava eram encarnações de Ananga Manjari, a irmã mais nova de Radharani. Sendo shaktis eternas do Senhor Balarama, as duas irmãs, Vasudha e Jahnava, se tornaram esposas de Nityananda Prabhu (sua encarnação na lila do Senhor Chaitanya). A poligamia era comum nessa época na Bengala.
Jahnava não teve filhos e sua irmã, Vasudha teve dois filhos: uma menina, chamada Ganga, que era a personificação do rio Ganges como mencionado no Gaura-ganoddesha-dipika (69)[2], e um menino, Virabhadra mencionado no Gaura-ganoddesha-dipika (67)[3] como uma encarnação de Kshirodakashayi Vishnu. Vasudha faleceu prematuramente, e seus filhos foram criados por Jahnava como seus próprios filhos.
O Casamento de Jahnava com Nityananda Prabhu
Sri Narahari Cakravarti, no seu Bhakti-ratnakara[4] narra o casamento do Senhor Nityananda, como tendo ocorrido segundo os costumes humanos. Ele descreve que um kayastha (designa uma comunidade hindu no subcontinente indiano composta historicamente por escribas, administradores, contadores e funcionários do governo) chamado Krishna Das, filho de Harihoria de Bariagachi, uma vila perto de Shaligrama, assumiu a responsabilidade de encontrar uma esposa para Nityananda Prabhu. Por outro lado, um brâmane idoso de Shaligrama percebeu a preocupação de Surya Das em encontrar um marido adequado para suas duas filhas e fez a seguinte sugestão: “Na vila de
[1] Gaura Ganoddesha Dipika (65-66). As duas esposas do Senhor Balarama, Shrimati Varuni-devi e Shrimati Revati-devi, apareceram durante os passatempos do Senhor Chaitanya como Shrimati Vasudha-devi e Shrimati Jahnavi-devi, as duas queridas esposas do Senhor Nityananda e filhas da grande personalidade Shri Surya-dasa. Seu pai, Surya-dasa, havia sido anteriormente o Maharaja Kakudmi. Seu brilho corporal o tornava tão radiante quanto o sol. Alguns dizem que Shrimati Vasudha-devi é a encarnação de Shrimati Ananga-manjari, e outros dizem que Shrimati Jahnavi-devi é a encarnação de Shrimati Ananga-manjari. Na verdade, ambas as opiniões estão corretas. Ambos são encarnações de Shrimati Ananga-manjari.
[2] Gaura Ganoddesha Dipika 69. O rio Ganges, que nasceu dos pés de lótus do Senhor Vishnu, apareceu nos passatempos do Senhor Chaitanya como Shrimati Ganga-devi, filha do Senhor Nityananda. Seu marido, Shri Madhava, havia sido anteriormente o Maharaja Shantanu.
[3] Gaura Ganoddesha Dipika 67. A expansão do Senhor Sankarshana conhecido como Senhor Kshirodakashayi Vishnu apareceu nos passatempos do Senhor Chaitanya como Virachandra Prabhu. O Senhor Virachandra não era diferente do próprio Senhor Chaitanya.
[4] Narahari Cakravarti, Bhakti-ratnakara, cap. 12
Ekachakra, em Radhadesha, vive um casal chamado Hariai Pandit e Padmavati Devi. Eles foram Vasudeva e Rohini em suas vidas anteriores em Krishna-lila. Balarama encarnou-se como seu filho, Nityananda. Nityananda viajou para todos os locais de peregrinação, realizou muitas austeridades e tornou-se um grande erudito antes de chegar a Navadwip e se tornar o associado mais querido de Chaitanya Mahaprabhu. Ele é o esposo eterno de suas duas filhas.”
Em um sonho, Surya Das também teve uma visão de Nityananda como Balarama, com Vasudha e Jahnava à sua esquerda e à sua direita, em suas formas de Revati e Varuni. Quando Surya Das levou a sério o conselho do brâmane e ofereceu as duas jovens aos pés de lótus de Nityananda, este, misericordiosamente, concedeu-lhe a mesma visão diretamente. Ele viu Vasudha e Jahnava como Varuni e Revati, cujas formas eram mais resplandecentes que montanhas de ouro e kunkum. De pé à esquerda e à direita de Balarama, estavam adornadas com magníficas joias e vestidas com roupas finas e coloridas. Nityananda revelou essa magnificência ao seu devoto para lhe dar alegria, e Surya Das se perdeu completamente em êxtase[1]. Os rituais adhivasa na véspera do casamento foram realizados na casa de Krishna Das Sarakhela em Shaligrama. Todos os brâmanes de Bariagachi e Shaligrama estavam presentes. Surya Das Sarakhela entregou suas duas filhas em casamento a Nityananda Prabhu, de acordo com os ritos religiosos e o costume popular.
Há uma outra versão também sobre como se deu os arranjos para o casamento narrada no Shri Chaitanya: His Life & Associates” (Shrila Bhakti Ballabh Tirtha Maharaj)[2]. Certa vez, Chaytania Mahaprabhu disse o seguinte ao Prabhu Nityananda: “Se você também se limitar à vida austera de um renunciante, quem libertará as pessoas imersas em maya? Como nosso trabalho continuará neste mundo? Portanto, por favor, retorne a Gaudadesha e aceite o modo de vida de chefe de família. Você poderá continuar pregando bhajan sankirtan e ser o exemplo vivo de amor e devoção para as pessoas materialistas.”
Mahaprabhu fez isso porque sabia que as Shaktis de Nityananda haviam surgido e o aguardavam. Uma delas desempenharia um papel crucial na manutenção do movimento no futuro, quando elas desaparecessem: Jahnava Devi.
Nityananda chegou à casa de Suryadas acompanhado de seu discípulo predileto, Uddharan Dutta. “Desejo me casar; por favor, dê a mão de sua filha em casamento para mim”, disse ele a Suryadas. Porém, Suryadas não concordou, pois Nityananda havia abandonado seu varna de renunciante. Rejeitado por Suryadas, Nityananda retornou. Vasudha sabendo que a Divindade onisciente desejava desposá-la, ficou apaixonada. E quando o casamento foi rejeitado pelo, perdeu a consciência e faleceu. Ao receber essa notícia trágica, Gouridas veio e prostrou-se aos pés de seu irmão mais velho, Suryadas. Ele pediu a
[1] Narahari Cakravarti ,Bhakti-ratnakara cap. 12.(3908-10)
[2] Sri Chaitanya e Seus Associados ; Autor: Swami BB Tirtha Maharaja; Editora: Simon and Schuster, 2022, p.217.
Suryadas que chamasse Prabhu Nityananda de volta, pois somente Ele poderia trazer Vasudha de volta à vida.
O corpo de Vasudha fora levado às margens do Ganges para o funeral. Nityananda apareceu ali e Suryadas prostrou-se a seus pés. “Por favor, traga minha filha de volta à vida”, implorou ele, soluçando. Nityananda disse: “Só a trarei de volta à vida se você concordar em me dar ela em casamento.” Suryadas concordou. A brisa suave emanada do corpo transcendental de Nityananda tocou o corpo de Vasudha. A fragrância divina de Seu corpo penetrou por suas narinas. Vasudha recuperou a consciência e contemplou Prabhu Nityananda com os olhos bem abertos.
“Agora, organize o casamento”, ordenou Nityananda Prabhu. Suryadas respondeu: “Por favor, submeta-se aos ritos purificatórios védicos e use o cordão sagrado”. Nityananda concordou, dizendo: “Como desejar. Permaneço neutro. Hoje, o único governante supremo é Chaitanya Goswami”.
Após o casamento, certo dia, Nityananda Prabhu estava fazendo sua refeição. Janhava, a irmã mais nova de Vasudha, estava servindo a comida. O véu que cobria a cabeça de Janhava escorregou e Nityananda a viu e percebeu que Janhava Devi era toda a sua energia, sua shakti. Ele disse a Suryadas: “Por favor, dê-me também sua filha mais nova como minha esposa.” Suryadas respondeu: “Não tenho nada que não possa lhe dar. Minha riqueza, casta, casa e até mesmo minha própria vida – tudo é seu.”
Assim, a cerimônia de casamento foi realizada de forma muito auspiciosa e Nityananda Prabhu permaneceu em Shaligram com suas duas esposas recém-casadas por alguns dias. Depois disso, Ele foi para a casa de Shri Krishna das em Borgachi, onde permaneceu por alguns dias. Em seguida, foi para Navadwipa. Juntamente com suas duas esposas, prestou suas homenagens aos pés de Saci Mata (mãe do Senhor Chaytania)[1]. Saci Mata ficou extremamente satisfeita em vê-los e demonstrou grande afeto pelas novas esposas.
Os discípulos de Jahnava Devi O Prema-vilasa e o Nityananda-vamsha-vistara mencionam que quando Virabhadra procurou um mestre espiritual, ele pediu abrigo a Sita Thakurani, a esposa de Sri Advaita, o terceiro membro do Panca-tattva (“as cinco verdades espirituais principais”), junto com o Senhor Chaytania, Nityananda Prabhu, Gadadhara e Srivasa Thakura. Ela disse a ele que deveria procurar um guru mais perto de casa, e Virabhadra entendeu que isso significava sua própria mãe. Mas ele não estava convencido de que Jahnava seria um guru apropriado para ele, devido
[1] Gaura Ganoddesha Dipika 37. Shrimati Yasoda-devi e o rei Nanda de Vraja, que foram como dois grandes oceanos do néctar do amor por Krishna durante os passatempos do Senhor em Vrindavana, apareceram durante os passatempos do Senhor Chaitanya como Shrimati Sachi-devi e Shriman Jagannatha Purandara. Disso não há dúvida.
à proximidade familiar. Porém, um dia ele a viu enquanto ela terminava seu banho. Enquanto ela secava o cabelo, o sári molhado escorregou abaixo dos ombros. Para esconder sua nudez, ela produziu dois braços extras para pegar o pano pendurado. Virabhadra ficou surpreso com esta demonstração de divindade – quatro braços, como Vishnu – e imediatamente pediu que ela o iniciasse[1].
Devido à força espiritual de sua Guru, Virabhadra[2] se tornou um líder importante na comunidade gaudiya-vaishnava, e também um guru. Ele não foi o único discípulo importante de Jahnava. Ela tinha numerosos seguidores, muitos dos quais receberam iniciação dela e lideraram os vaishnavas da Bengala. Outro discípulo significativo foi Ramachandra Gosvami, neto de Vamshivadana Thakura, que cuidou de Sachi Devi (mãe de Śrī Caitanya) e Vishnupriya Devi (esposa de Mahaprabhu), após Sua partida deste mundo.
Jahnava adotou Ramachandra como filho, e ele a acompanhou em sua última viagem a Vraja. Nesta ocasião ele pode testemunhar sua liderança atuante, como ela controlava a comunidade Vaishnava e estudou as escrituras sob sua orientação. Posteriormente ele fundou o ramo Baghnapada de Gosvamis (junto com Jahnava Mata esse ramo ajudou a unificar diferentes visões teológicas que surgiam na Bengala pós-Chaitanya, mantendo a pureza da mensagem original contra desvios filosóficos)[3], agora famoso em toda a Bengala. Foram esses Gosvamis que deram a Bhaktivinoda Thakura o título de Bhaktivinoda, que significa “o prazer da devoção”. Ramachandra Goswami escreveu textos importantes como o Ananga-manjari-samputika[4]. A obra revela ensinamentos cruciais sobre a identidade espiritual e a importância de Ananga Manjari (que se manifestou na era de Chaitanya como Jahnava Mata para obter a misericórdia de Nityananda Prabhu)[5].
[1] Prema-vilasa menciona: “Ao ver a deusa de quatro braços, Vira caiu ao chão em profundo respeito, pedindo-lhe que o iniciasse. Ele não teria necessidade de ir a Santipura para procurar um guru”, isto é, para se aproximar da esposa de Advaita. (Nityananda Dasa, Prema-vilasa ,Calcutá: Jashodalal Talukdar, 1913, 252–253).
[2] Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura escreve em seu Anubhasya, ‘Virabhadra Gosani era filho direto de Srila Nityananda Prabhu e discípulo de Jahnava Devi.’” (significado Caitanya-caritamrta Adi-lila 11.8)
[3] Satyaraja Dasa, Jahnava Thakurani: Heroína Suprema, https://voltaaosupremo.com/artigos/artigos/jahnava-thakurani-heroina-suprema/, acessado em 01.07.2026)
[4] Disponível: https://ia601606.us.archive.org/22/items/AnangaManjariSamputika/ananga-manjari-samputika.pdf
[5] Ananga-manjari-samputika, Caturtha-laharī ,(7-9)“A shakti de Baladeva se chama Jahnava, que antes era conhecida como Ananga Manjari. Por amor a Nityananda, ela gentilmente manifestou duas partes em um só corpo, para conceder misericórdia às almas caídas.” “Aquela que era Ananga Manjari agora é famosa como Sri Jahnava Thakurani. Ela é inteligente, tem excelente gosto, é séria, tem tez dourada e olhos como lótus. Esta filha de Surya Dasa Pandita é uma Devi que veste roupas finas e cujas mãos, pés e todos os outros membros são decorados com uma variedade de ornamentos. Sua tez é tão dourada quanto as flores de Campaka e seu rosto brilha como um milhão de luas. Ela está sempre meditando em Nityananda e é encantada por Seus atributos.”
Sri Narahari Cakravarti, no seu Bhakti-ratnakara, menciona que pelo arranjo de Jahnava Devi as filhas de Yadunandana Acarya, chamadas Srimati e Narayani, se tornaram as esposas de Viracandra. No dia do casamento, Yadunandana recebeu iniciação de Viracandra, e Sri Jahnava aceitou Srimati e Narayani como suas discípulas.[1]
As peregrinações de Jahnava Devi
Após o festival em Kheturi, Jahnava foi discorrer com os Gosvamis de Vrindavana. Suas peregrinações à Vrindavan foram transformadoras para muitas pessoas, assim como o próprio Chaytania Mahaprabhu durante Sua estada em Vrindavana. Ela atraiu simpatizantes ao movimento e realizou trocas amorosas com as Deidades enquanto esteve lá, além de estudar com seis Gosvamis. Até mesmo os vaishnavas mais radicais passaram a aceitá-la como a autoridade preponderante na prática espiritual.
A área do Radha-kunda onde ela se banhava ficou conhecida como Jahnava Ghata, com um pequeno santuário em homenagem ao local onde ela se sentava, chamado Jahnava Ma Baithaka. Até hoje, peregrinos visitam este local sagrado. Seus passatempos em Vrindavana revelaram mais ainda sua divindade.
Certo dia, enquanto estava no Radha-kunda, Jahnava ouviu a melodia toda atrativa da flauta de Krishna. Assustada, ela olhou aqui e ali, na esperança de espionar a origem do som. Finalmente, ela viu a graciosa forma de Krishna, curvada em três partes, tocando docemente Seu instrumento sob uma árvore kadamba, cercada por Radharani e pelas gopis. Ela ficou paralisada, em êxtase espiritual.
Em outro passatempo, quando ela foi levada para o Rama-ghata, a área ao longo das margens do Yamuna onde Balarama desfrutou de uma dança da rasa com as gopis, seu êxtase espiritual aumentou mais ainda. Isso ocorreu porque Nityananda (Balarama) é seu consorte eterno, e a área do Rama-ghata naturalmente aumentou seu já incomparável amor por Ele. De acordo com o historiador bengali Ramakanta Chakravarti[2], a primeira vez em que Jahnava Devi foi à Vrindavana, ela foi como aprendiz, ouviu atentamente os discursos de Sanatana e Rupa e conheceu os outros Gosvamis. Os principais Gosvamis a reconheceram como uma liderança entre os vaishnavas bengalis. Ela, provavelmente foi a Vrindavana duas vezes e estabeleceu a conexão entre os vaishnavas da Bengala e de Vrindavana e trabalhou incansavelmente para a unificação de várias seitas bengalis localizadas em diferentes regiões da Bengala Ocidental. Em entrevista a Joseph T. O’Connell[3], professor emérito do Departamento de Religião da Universidade de Toronto, Srila Prabhupada cita que Jahnava
[1] Narahari Cakravarti, Bhakti-ratnakara, cap. 13.
[2] Ramakanta Chakravarti, Vaishnavism in Bengal: 1486-1900 (Calcutta: Sanskrit Pustak Bhandar, 1985) 175.
[3] Conversas com Srila Prabhupada (Los Angeles: Bhaktivedanta Book Trust, 1990), Volume 22 (Toronto, 18.6.76), 19–20.
“começou a dar iniciação e instrução espiritual aos seus próprios discípulos, tanto homens quanto mulheres… Ela provou ser extremamente capaz e eficaz na formulação de políticas e parece ter sido a líder mais enérgica da comunidade vaishnava de Chaitanya de sua geração… Ela fez duas vezes a árdua jornada até Vrindavana, onde foi recebida com respeito pelos eruditos Gosvamis. Ela parece ter sido fundamental para que Srinivasa Acharya fosse comissionado para ir a Vrindavana aprender a teologia e as práticas dos Gosvamis e propagar Radha-Krishna-bhakti ao retornar à Bengala”.
O nome de Jahnava estará sempre ligado a Vrindavana, devido ao seu relacionamento íntimo com as Deidades de Radha-Gopinatha, consideradas uma das formas mais místicas de Krishna na tradição gaudiya porque representam Prayojana-tattva, o despertar do amor puro e eterno por Deus (Krishna Prema).
Até hoje, a forma de deidade de Jahnava está ao lado de Radha-Gopinatha em Vrindavana e Jaipur. Ela acompanha Radha-Gopinatha em Vrindavana não apenas porque é muito amada lá, mas também porque, como dito, ela é Ananga Manjari, a irmã mais nova de Sri Radha. Isso é significativo levando-se em consideração a posição única de Gopinatha – e dela. Jahnava e seu alter-ego Ananga Manjari são considerados o emblema de madhurya-rasa, ou a quintessência do amor romântico na plataforma espiritual. Radha-Gopinatha são as Deidades mais adequadas para receber esse amor (Satyaraja Dasa,2022)[1].
Outro passatempo, narra que durante uma das peregrinações de Jahanva Mata em Vrindavan, alguns invejosos de uma aldeia onde seu grupo parou para descansar quiseram prejudicá-los enquanto dormiam. A deusa padroeira da aldeia, Chandi, apareceu em seus sonhos e os repreendeu severamente por sequer pensarem em ferir Janhava Mata. “Janhava é uma deusa. Implorem perdão e busquem refúgio nela, ou então, eu destruirei todos vocês”, disse a deusa. Os homens arrependidos prostraram-se aos pés de Janhava e imploraram por misericórdia.
Em outra situação, durante a jornada, alguns bandidos tentaram roubá-los. Esperaram até a noite e começaram a caminhar em direção à margem do rio, onde o grupo de peregrinos dormia. Enquanto caminhavam, o caminho parecia se estender indefinidamente, mas eles não conseguiam alcançar os devotos adormecidos. Finalmente, ao amanhecer, perceberam o que havia acontecido e perceberam a divindade de Jahnava, correram e se prostraram aos pés dela. Esses bandidos se converteram em devotos vaishnavas[2]. Diz-se que a encarnação de Sri Krishna mais misericordiosa é na forma de Śrī Caitanya Mahāprabhu, pois Ele distribuiu o santo nomes a todos, sem distinção, quer fossem devotos ou
[1] Veja em https: //voltaaosupremo.com/artigos/artigos/jahnava-thakurani-heroina-suprema/#:~:text=Ela%20tamb%C3%A9m%20%C3%A9%20conhecida%20como,os%20gaudiyas%20de%20seu%20tempo.
[2] Sri Chaitanya e Seus Associados ; Autor: Swami BB Tirtha Maharaja; Editora: Simon and Schuster, 2022, p.217.
materialistas. Śrī Nityananda é considerado ainda mais misericordioso, pois deu o santo nome de Krishna até mesmo a Jagai e Madhai dois brâmanes de nascimento que haviam se tornado ladrões e alcoólatras violentos que lhe agrediram enquanto estava em sankirtan (Sri Caitanya-caritamrta, 1975, Adi-lila 10.120). Como uma shakti de Krishna é ainda mais misericordiosa que o próprio Krishna, Jahnava Devi, sendo a shakti de Nityananda, é a encarnação mais misericordiosa de todas, o poder de sua misericórdia foi capaz de transformar corações endurecidos em almas devotadas.
Como Jahnava Devi parte desse mundo material
Certo dia, Jahnava Devi entrou sozinha no Templo de Radha Gopinatha, localizado em Vrindavan, e a porta se fechou atrás dela. Shri Gopinatha segurou a roupa de Janhava e a puxou, fazendo-a sentar-se à sua esquerda. Quando os devotos abriram a porta do templo, encontraram Janhava transformada em uma divindade dourada, manifestada à direita de Gopinatha. O Vamshishiksha[1] e o Murali-vilasa[2] dizem que Janhava Mata deixou este mundo ao se fundir com a divindade do Senhor Gopinatha em Vrindavan. Sentindo o amor mais profundo, ela se fundiu nessa mesma Deidade de Gopinatha, que está atualmente em Jaipur, tendo sido transferida de Vrindavana para lá no século XVII.
Na época da partida de Janhava deste mundo, sua bela manifestação como Ananga Manjari, em postura de dança à direita de Krishna, foi enfatizada pelos seguidores mais íntimos de Nityananda Prabhu. Essa “Ananga-Kanai-Rai”, a devoção reverente da irmã mais nova de Radha junto com Radha e Krishna, permanece o foco dos devotos que seguem a linhagem de Janhava Devi [3].
O papel de Jahnava Devi no Movimento do Senhor Chatanya Mahaprabu
A importância de Jahnava Thakurani no movimento Vaishnava pós-Chaitanya é evidenciada pelo papel de liderança que ela desempenhou na organização do festival Kheturi (em torno de 1580). Três Vaishnavas organizaram o festival – Narottam Das de Kheturi, Srinivas Acharya de Jajigram e Jahnava Devi. Os três foram treinados pelos goswamis de Vrindavan. Na época, surgiram ensinamentos divergentes da mensagem pura dos Seis Gosvamis, como Gaura-paramyavada, Gaura-nagaravada, Adwaita-paramyavada e outras, que começaram a ganhar força na tradição, cujas teorias representavam visões alternativas sobre como a autoridade espiritual e a identidade divina de Mahaprabhu deveria ser interpretada. Então,
[1] Vamshishiksha é uma obra literária e biográfica esotérica escrita em língua bengali antiga pelo poeta devoto Premadasa Mishra.
[2] Muralī-vilāsa é outra obra biográfica e teológica de extrema importância dentro da tradição escrita por Prabhu Rajavallabha Gosvami.
[3] Shri Chaitanya: His Life & Associates” por Shrila Bhakti Ballabh Tirtha Maharaj.
Jahnava Thakurani agiu acomodando essas variações dentro do esquema dos ensinamentos puros dos Seis Gosvamis e evitando cisões dentro do movimento. Isso aconteceu durante o famoso festival Kheturi, a primeira grande celebração do aparecimento de Mahaprabhu neste mundo. É difícil imaginar o poder carismático que Jahnava possuia para convencer seus diferentes grupos sobre a visão dos Goswamis.
Ela, como a principal Vaishnava da época, mediou em nome de todos esses grupos e resolveu suas diferenças para satisfação da ortodoxia Gaudiya. (Steve Rosen, The Lives of the Vaishnava Saints, 91-92). Ela era considerada uma deusa (īśvarī) e se esforçou muito para eliminar as diferenças sectárias e regionais. Pouco antes do festival Kheturi, ela viajou incessantemente de um lado para o outro, consultando os líderes dos diferentes grupos. Ela se absteve escrupulosamente de criar uma instituição própria, embora tivesse muitos discípulos. Sua disposição para a unificação é citado na obra Prema-vilāsa de Nityananda Das, que também foi seu discípulo, e é considerada absolutamente livre de preconceitos sectários. Ela enfatiza as atividades de todos os grupos e líderes de grupo (RK Chakravarti, Vaishnavism in Bengal, 176)[1].
O festival foi uma grande reunião ecumênica, com a presença de todos os gaudiya-vaishnavas proeminentes do período, incluindo Narottama Dasa Thakura, Srinivasa Acharya e Shyamananda Prabhu. Jahnava não foi apenas considerada a convidada de honra, mas a principal vaishnava do festival, venerada por todos. Todos ficaram maravilhados com seu conhecimento e força espiritual.
Do ponto de vista histórico, Jahnava estava entre as figuras mais importantes no início da tradição gaudiya-vaishnava. Foi ela quem primeiro enfatizou os ensinamentos dos seis Gosvamis na Bengala, a terra natal da tradição gaudiya, e encorajou Srinivasa Acharya a estudar com os Gosvamis em Vrindavana. Ela também foi fundamental para encorajar Srinivasa, Narottama e Shyamananda a retornarem à Bengala com os livros dos Gosvamis, para que os vaishnavas bengalis pudessem se tornar bem fundamentados nas escrituras.
Na mesma entrevista a Joseph T. O’Connell[2], Srila Prabhupada, cita a importância de Jahnava Devi na condução do movimento de Sankirtan e seu papel como guru vaishnavi:
O’Connell: É possível, Swamiji, que uma mulher seja um guru na linha de sucessão discipular? Prabhupada: Sim. Jahnava Devi era. Ela se tornou. Se a mulher é capaz de atingir a perfeição mais elevada da vida, por que não pode tornar-se guru? Na verdade, quem atingiu a perfeição pode se tornar um guru. Mas homem ou mulher, a menos que tenha alcançado a perfeição… Yei krishna-tattva-vetta sei guru haya [Chaitanya-charitamrita, Madhya 8.128]. A qualificação do guru é que ele deve conhecer plenamente a ciência de Krishna. Então, ele ou ela pode se tornar guru. Yei krishna-tattva-vetta sei guru haya [pausa na gravação]. Em nosso mundo material, existe alguma proibição dizendo que uma mulher não pode se tornar professora? Se ela for qualificada,
[1] Ramakanta Chakravarti, Vaiṣṇavism in Bengal, 1486–1900. pp. xvi, 555. Calcutta, Sanskrit Pustak Bhandar, 1985. Rs 300.
[2] Conversas com Srila Prabhupada (Los Angeles: Bhaktivedanta Book Trust, 1990), Volume 22 (Toronto, 18.6.76), 19–20.
ela pode se tornar professora. Qual é o problema aí? Ela deve ser qualificada. Essa é a posição. Da mesma forma, se a mulher compreender perfeitamente a consciência de Krishna, ela poderá se tornar guru.
Em relação às mulheres servindo como gurus iniciadoras, alguém poderia alegar que o exemplo de Jahnava Devi era uma exceção, pois ela era uma associada eterna do Senhor, uma ishvari, assim, não era uma mulher comum. Na entrevista acima, Srila Prabhupada discorda claramente deste argumento, dizendo que as mulheres em geral podem ser gurus, e cita Jahnava como evidência. Grandes almas do início do período gaudiya atuaram como acharyas, contemporâneas à Jahnava, como Sita Thakurani, Hemalata e Gauranga-priya Devi[1] e também pós-chaytania como Gangamata Gosvamini[2]. Elas eram grandes acharyas que ensinavam através do exemplo e, portanto, se fosse inapropriado para uma mulher adotar a posição de guru, Jahnava nunca o teria feito. E também fica claro que esta já era uma prática estabelecida na cultura vaishnava.
[1] Sita Thakurani – A esposa de Advaita Prabhu. De acordo com o Prema-vilasa (vilasa 24) de Nityananda Dasa, Sita Thakurani deu diksa (krsna-mantra) a seus dois servos Nandini e Jangali. Os vaikuntha-svarupas de Nandini e Jangali são os conhecidos porteiros Jaya e Vijaya (Gaura-ganoddeSa-dipika texto 89). Seu discipulado a Sitadevi, juntamente com outros fatos interessantes, é corroborado na conhecida e respeitada compilação chamada Gaudiya-vaisnava abhidhana e no Sita-caritra de Lokanatha Dasa. Hemalata Thakurani – A filha mais velha de Srinivasa Acarya.
Hemalata Thakurani, contemporânea de Jahnava, foi uma das líderes proeminentes da tradição em sua época. Entre seus discípulos, Yadunandana, a autora de Karnananda, é particularmente conhecida (ver Karnananda [cap.2 e 3] e a introdução [pág. 12] a Krsna-karnamrta por Sambidananda Das Ph.D). Ela também tinha uma discípula rebelde chamada Rupa Kaviraja. (ver Gaudiya-vaishnava abhidhana pág. 1422). “Agora os discípulos de Sri Hemalata serão descritos. Sri Suvala Chandra Thakura e seu sobrinho Sri Gokula Chakravarti eram seus discípulos. Sri Radhavallava Thakura da aldeia Mandala, Sri Vallavadasa da família Gosvami e Yadunandana Vaidya dasa da aldeia Malihati eram todos discípulos de Sri Isvari. Kanurama Chakravarti e seus dois servos Darpanayana e Candi, Ramacarana, Madhu Miswas e Radha Kanta Vaidya foram outros discípulos de Hemalata. Jagadisa Kaviraja e seu seguidor, que era irmão de Radhavallabh Kaviraja, foram iniciados por Hemalata.” (Karnananda, cap.2, último parágrafo).
Gauranga-priya Devi – A segunda esposa e discípula de Srinivasa Acarya (Gaudiya-vaisnava abhidhana pg. 1224) Ela era de uma família brâmane Cakravarti, seu pai era Raghunatha Cakravarti, um residente de West Gopalapura. Ela iniciou vários discípulos, sendo um deles Gurucarana Dasa, que escreveu um livro a seu pedido chamado Premamrta, que é baseado no Prema-vilasa (Gaudiya-vaisnava abhidhana pg. 1203).
“A primeira esposa de Srinivasa Acarya, Srimati ISvari Thakurani, era uma senhora altamente devota. Gauranga-priya, sua segunda esposa, também possuía elevadas qualidades devocionais. No devido tempo, muitas pessoas se tornaram discípulos de Srinivasa Acarya e suas esposas.”(Karnananda, cap.2)
[2] Gangamata Gosvamini – Discípulo de Haridasa Pandita Gosvami, o sevaíta de Govindaji mencionado
no Sri Caitanya-caritamrta. Entre outros, o Rei Mukundadeva de Jagannatha Puri e vários sevaites do Senhor Jagannatha receberam diksa dela. Ela também era uma oradora eloquente e explicava o Srimad-Bhagavatam para grandes audiências. O caso de Gangamata Gosvamini é mais uma confirmação de que uma mulher pode ser uma guru em uma linha genuína de Gaudiya Vaisnava. Pelo menos até o ponto dela na linha, a linha era genuína porque seu guru foi confirmado por Srila Krsnadasa Kaviraja Gosvami no Caitanya-caritamrta (Adi 8.60). Sua aceitação de discípulos é confirmada no Gaudiya-vaisnava abhidhana (págs. 1197-98) e pelo atual mahanta, Balarama Das Gosvami, no Gangamata Gosvamini Matha em Puri.