Efeitos psicológicos dos Rituais e Cerimonias védicas

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Efeitos psicológicos dos Rituais e Cerimonias védicas

Rama Putra Dasa.


Os rituais e cerimônias que iremos tratar são profundamente enraizados na tradição da literatura védica adaptados para a modernidade. Eles desempenham um papel fundamental não apenas na nossa espiritualidade, mas também na psique humana. Vamos explorar os efeitos psicológicos dessas práticas rituais e cerimoniais dentro de uma tradição milenar, observando como elas oferecem um lugar de transformação interior, promoção de bem-estar emocional e fortalecimento do sentido de pertencimento. Ao nos conectarmos com os elementos simbólicos e os mantras sagrados, os rituais não apenas nos ajudam a navegar pelas transições mais importantes da vida, mas também proporcionam um alicerce para a resiliência emocional e um autoconhecimento profundo de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. Convidamos os praticantes, apreciadores desta tradição e profissionais da área da saúde mental a descobrirem onde os atos devocionais podem moldar nossa mente e alma, cultivando um estado de paz, esperança e renovação.

Sabemos objetivamente que o resultado de um ritual bem executado mostrará verdadeira eficácia se os beneficiários estiverem felizes e satisfeitos psicologicamente. Temos detectado, ao longo dos anos, vários efeitos psicológicos positivos nas práticas rituais. Antes de falar dos efeitos psicológicos vamos dar uma breve descrição sobre os rituais e cerimônias védicas como introdução do tema para contextualizar nossa temática.
Rituais e Cerimônias Védicas
Os rituais e cerimônias védicas são componentes importantes que se fazem presentes na prática espiritual dos membros da tradição das escolas do Bhakti Yoga e possuem diferenças significativas em suas naturezas e propósitos.
Podemos definir os rituais védicos como práticas espirituais e religiosas específicas, muitas vezes ligadas a regras ou fórmulas prescritas na literatura antiga, os Vedas. Eles incluem uma série de ações, mantras e oferendas. O foco dos rituais da escola Bhakti é a realização de homenagens devocionais (puja) e oferendas (yajna) conectados com a divindade Suprema Kṛṣṇa. O objetivo dos ritos desta tradição é o despertar da devoção, bênçãos, purificação ou proteção divina. As estruturas destes rituais são bem definidas porque obedecem uma sequência específica de regras tais como, a recitação de mantras e realização de oferendas. Os rituais podem ser realizados em grupo ou individualmente e frequentemente envolvem um sacerdote ou sacerdotisa (pundit) para garantir o correto procedimento para acender o fogo dos yajnas (sacrifícios de fogo sagrado), homas (oferendas para o fogo sagrado) são as etapas dos rituais védicos. Por outro lado, as cerimônias védicas referem-se a eventos ou celebrações que incluem rituais como parte de sua estrutura social ou comunitária. As cerimônias mais comuns acontecem para celebrações importantes na vida (como nascimento, batizados, casamento e morte). Na tradição da cultura védica as cerimônias são mais flexíveis e podem incluir várias atividades ou atos como numa peça teatral. Porém em todos os casos, as cerimônias só poderão ser consideradas sagradas e efetivas se cumprirem os procedimentos descritos na Bhagavad-Gita capítulo 17, verso 12, Kṛṣṇa diz: “Considera-se que todo sacrifício executado sem que se levem em consideração a direção das escrituras, sem que se distribua prasādam (alimento espiritual ou consagrado), sem que se cante os hinos védicos, sem que se remunere os sacerdotes e sem que se tenha fé, está no modo da ignorância”. Assim, para estabelecer os níveis de hierarquias das práticas rituais, a Bhagavad-Gita, define especialmente nos capítulos 14, 17 e 18, uma abordagem dos ritos sob a ótica das três qualidades da natureza (gunas): bondade ou equilíbrio (sattva), paixão ou desejos (rajás) e obscuridade ou ignorância (tamás).
A influência dos Gunas nos Rituais
No passado ancestral dos vedas não havia o que chamamos de psicologia moderna. A psicologia ocidental é definida como ciência que estuda a mente e o comportamento humano, incluindo suas interações com o ambiente físico e social. O termo “psico” (alma) e “logia” (estudo) provém dos gregos e no passado védico, quando havia necessidade de compreender as características pelas quais tudo ocorre era comum recorrer à ciência dos Gunas. Gunas literalmente significa cordas que produzem laços que prendem nas qualidades fundamentais da natureza. Existem três gunas: sattva, rajas e tamas.

Quando focamos no modo da bondade sattva guna percebe-se que este é o estado psicológico natural do ser humano representando a pureza, a clareza, harmonia ou a bondade. Em Raja guna percebemos a energia, atividades e paixão associada ao movimento ou desejo para criar com muita agitação mental. Por outro lado, tama guna representa a situação obscura da mente que leva a inércia e ignorância associada à confusão, a preguiça ou estagnação. Estar sempre em equilíbrio cultivando a bondade ou sattva guna durante a vida é um dever natural de todo ser humano civilizado que está associado à luz do conhecimento e à harmonia. Este dever sattva influência no resultado positivo das práticas ritualísticas que vamos tratar pelas seguintes razões psicológicas e filosóficas que destacamos a seguir.
Critérios para os Rituais em Sattva Guna segundo a Bhagavad Gita
Segundo a Bhagavad Gita temos de ter as seguintes considerações para que possamos perceber os efeitos positivos dos rituais: a direção das escrituras, distribuição de prasādam (alimento espiritual ou consagrado), canto dos hinos ou mantras védicos, remuneração ou doações aos sacerdotes e é fundamental que se tenha fé. Vamos elaborar brevemente a importância de cada um destes critérios.

  1. Estar de Acordo com as Escrituras: A adesão às orientações das escrituras autorizadas proporciona uma estrutura segura e um senso de propósito na vida. Toma-se conhecimento através do contato dos sentidos com seus objetos. Pode ser de dois tipos: externa, quando percebida por um ou mais dos cinco sentidos para adquirir conhecimento; e interna, quando se percebe emoções como dor, amor, ódio, através do sentido interno, a mente. Devido às várias limitações dos seres humanos impuros ou condicionados, e por nos limitar a perceber apenas o presente e nunca o passado ou futuro, pratyaksa (percepção direta dos sentidos com seus objetos) nem sempre é considerada como um meio de se obter conhecimento válido. Assim, nós optamos pelo método epistemológico conhecido como sabda ou conhecimento védico que é ouvido diretamente. Literalmente a palavra sabda significa “som”. Trata-se do som original através do qual o conhecimento transcendental transmitido por mestres autorizados livres das limitações humanas que transmitem o conhecimento da literatura Védica dentro de uma sucessão discipular. Sabda pramana é considerada a evidência livre de defeitos. Existem escrituras basilares recomendadas tais como a Bhagavad Gita e Srimad Bhagavatam e muitos outros textos descritos por mestres fidedignos como redutores da ignorância, incerteza e ansiedade. Estas escrituras permitem que os praticantes se concentrem em rituais ou processos devocionais que promovem a verdade absoluta e paz interior. Seguir as escrituras autênticas validam a tradição e a sabedoria dos ancestrais, criando um atalho espiritual que conecta os praticantes a uma linhagem ampla de conhecimento e prática. Essa conformidade é considerada essencial para o sucesso dos rituais com efeitos psicológicos positivos tangíveis. Na Bhagavad-gītā  16.23 Krishna diz: yaḥ śāstra-vidhim utsṛjya vartate kāma-kārataḥ “Aquele que põe de lado os preceitos das escrituras e age conforme os próprios caprichos não alcança a perfeição, a felicidade, nem o destino supremo.” Alguém movido pelos gunas rajas e tamas ou desejos egoístas e por isso não seguem estritamente os termos dos preceitos védicos jamais obtém sucesso na vida nem felicidade porque a ausência de sattva causa perturbações ou ansiedades pessoais e sociais.
  2. Dar Prasadam (distribuir alimentos): A razão ou efeito psicológico no ato de oferecer prasadam (alimento sagrado) prove gratidão e generosidade. Isso cria uma conexão emocional positiva gerando felicidade e satisfação, tanto para quem oferece quanto para quem recebe. A prasadam é vista como uma manifestação da energia divina. A palavra “prasadam” é composta de duas partes e deriva do sânscrito e é formada pelo prefixo “pra” e a raiz “sada”. Vamos analisar suas partes: Pra em sânscrito muitas vezes indica intensidade, doação ou algo que é abundante. Ele pode sugerir um sentido de “para”, “em direção a” ou “antes” e “Sada” está relacionada à ideia de “benevolência” ou “bondade sattva”. Em alguns contextos, “sada” refere-se também ao que é constante ou bem feito. Já o sufixo “am” é um marcador neutro em sânscrito, que é usado para formar substantivos. Combinando esses elementos, “prasadam” pode ser traduzido etimologicamente como “algo que é dado em generosidade” ou “abençoado” e pode ser interpretado como “a oferta divina” ou “presente sagrado”. No contexto dos rituais védicos, prasadam se refere aos alimentos que foram oferecidos a uma divindade durante um ritual ou puja e, em seguida, são distribuídos aos devotos como uma bênção. Ao consumir apenas prasadam, os devotos acreditam que recebem a bênção e a energia espiritual da divindade a quem o alimento foi oferecido. Assim, o prasadam não é apenas um alimento físico, mas também uma fonte de controle psicológico, purificação mental e fortalecimento espiritual. Ao consumir prasadam e distribuir aos outros devotos de Kṛṣṇa não apenas alimentam o corpo, mas também elevam a mente e o espírito, entrando em sintonia com Ele e por isso não é possível acontecer um ritual sem que aconteça a distribuição de Prasadam.
  3. Cantar Mantras: O canto de mantras é o ponto nevrálgico que pode afetar a prática dos rituais e por isso iremos dar mais atenção a este ponto. É científico dizer que cantar mantras ajuda a acalmar a mente, melhora a concentração e fortalece a disposição emocional. Ao pesquisar sobre a comprovação científica dos benefícios do cantar dos mantras encontramos a seguinte citação: “A ciência comprova que cantar mantras ajuda a acalmar a mente. Pesquisas em neurociência e psicologia mostram que repetições sonoras, como mantras e afirmações, ativam regiões cerebrais associadas à atenção, relaxamento e autorregulação. A prática regular de cantar mantras está associada a uma diminuição dos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e a um estímulo na geração de neurotransmissores como a serotonina, conhecida por promover o bem-estar emocional. Os mantras também podem reduzir a ansiedade, o estresse e a pressão arterial. Além disso, a prática de mantras pode aumentar a atividade em áreas do cérebro associadas à atenção e ao controle emocional”. Especialmente a repetição de sons sagrados provoca ressonância interna, levando a um estado de meditação que alivia estresse e ansiedade. A palavra “mantra” pode ser entendida em duas partes, man significa mente e tra significa soltar ou libertar dos condicionamentos materiais que nos faz imaginar que somos o corpo físico privilegiado ou não por nascer em uma região específica. Os mantras são considerados vibrações da verdade absoluta que nos conecta com atmosfera espiritual. Especialmente recomendamos o entoar das palavras Hare Kṛṣṇa e Hare Rama, pois sabemos que os praticantes poderão se alinhar com as frequências espirituais superiores, aumentando a eficácia do ritual e intensificando a presença do sagrado. A mente recebe o benefício do autocontrole e ao mesmo tempo a purificação. Muitos processos do Yoga permitem o controle da mente. Porém, o cantar constante do maha mantra Hare Kṛṣṇa, simultaneamente a pessoa controla os desejos e sentimentos superficiais oriundos da mente descontrolada e ao mesmo tempo ela é purificada com o poder desse mantra. Esta purificação acontece porque as palavras Hare (energia de Deus) e Kṛṣṇa (o todo atrativo) são nomes de Deus dotados de poder. Os nomes de Deus não são diferentes das suas qualidades e potências. Assim, cantando os nomes de Deus realmente todos os males serão extinguidos da mente e imediatamente percebemos diversos benefícios psicológicos, que podem impactar positivamente a saúde mental e emocional dos praticantes. Em nossa experiência, percebemos que principalmente os devotos que são batizados e iniciam o compromisso diário de cantar este maha mantra Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare / Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare, depois de pouco tempo se livram de todas dificuldades na vida incluindo os vícios mais frequentes na sociedade moderna como o uso excessivo de dispositivos digitais, smartphones, redes sociais e videogames. Percebemos que os praticantes do maha mantra Hare Kṛṣṇa conseguem facilmente parar com o consumo de drogas, álcool e tabaco (que continuam sendo vícios que prevalecem), afetando a saúde individual e coletiva. Vícios como compulsão por sexo ou pornografia, alimentação desregrada, jogos de azar e compras excessivas (shopping compulsivo) são cada vez mais reconhecidos. Esses comportamentos levaram muitas famílias a crises financeiras e à deterioração da saúde física e mental. Esses vícios refletem os desafios da sociedade moderna e suas complexidades. No entanto, a conscientização sobre esse comportamento pode ser realmente efetiva quando recomendamos como ritual diário a prática do cantar do maha mantra Hare Kṛṣṇa. Pela nossa experiência não existe vício intransponível para quem canta regularmente o maha mantra Hare Kṛṣṇa, pois dependendo do nível de sinceridade e dedicação ao cantar os resultados serão percebidos rapidamente. Mesmo se alguém não optar por cantar o maha mantra Hare Kṛṣṇa e escolher outros mantras como forma de meditação, com certeza haverá resultados positivos como calma e alívio do estresse. Porém, estamos falando de nossa experiência com o ritmo repetitivo dos sons vibrantes do maha mantra Hare Kṛṣṇa que pode contribuir para uma maior aceitação de si mesmo e um reforço da autoestima. A prática regular pode ajudar os indivíduos a se sentirem mais conectados com sua essência espiritual, levando a uma percepção positiva de si mesmos. Cantar o maha mantra é uma prática que promove a conexão com Kṛṣṇa e por isso é descrito por nosso mestre Hridayananda das Goswami como o santo Graal ou a conquista máxima. Existe um texto publicado na revista “De Volta ao Supremo” onde Srila Prabhupada diz: “Estas três palavras “Hare”, “Kṛṣṇa” e “Rama” são as sementes transcendentais do maha-mantra. O cantar é um chamado espiritual para o Senhor e Sua energia darem proteção à alma condicionada. Esse cantar é exatamente como o choro genuíno de uma criança pela presença de sua mãe. A mãe Hara ajuda o devoto a alcançar a graça do pai, e o Senhor Se revela para o devoto que canta este mantra sinceramente. Nenhum outro meio de perfeição espiritual é tão efetivo nesta era de desavenças e hipocrisia quanto o cantar do maha-mantra: Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.” O exemplo da mãe afetuosa é muito apropriado porque é a pessoa que mais dá conforto e alegria no momento de dificuldade de uma criança ou mesmo um adulto. A prática regular do canto é associada a um aumento nos sentimentos de alegria e felicidade porque conecta o cantor com a mãe original Hara ou Srimati Radharani a mãe suprema ou a consorte eterna de Kṛṣṇa, ela é a energia do prazer espiritual supremo. A vibração positiva do maha mantra, combinada com o ato de cantar, pode estimular a liberação de neurotransmissores associados ao prazer como a serotonina e a dopamina que ajuda a desenvolver uma maior resiliência emocional. A conexão com o sagrado fornece um senso de segurança e suporte em momentos desafiadores, permitindo que os indivíduos enfrentem dificuldades com uma perspectiva mais positiva. Acima de tudo esta prática oferece uma oportunidade para a experiência de transcendência e conexão espiritual com Deus, Kṛṣṇa. Cantar o maha mantra “Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare” não é apenas uma prática ritualística diária, mas também uma ferramenta poderosa para a saúde mental e emocional. Os benefícios psicológicos resultantes dessa prática podem levar a uma vida mais equilibrada, feliz e espiritualmente conectada porque eleva a lembrança de Kṛṣṇa no fim da vida. Sobre a lembrança de Kṛṣṇa, nosso mestre Srila Prabhupada ensinou a cantar um mantra no início dos rituais de fogo agni hotra: om apavitrah pavitro vā / sarvāvasthāṁ gato api vā / yaḥ smaret puṇḍarīkākṣaṁ / sa bahya abhyantaraṁ śuciḥ śrī viṣṇu śrī viṣṇu śrī viṣṇu. Os sacerdotes devem explicar a tradução deste mantra antes de cantá-lo para ensinar sobre sua importância aos beneficiários. Seu significado profundo ajuda os beneficiários presentes no ritual a terem uma ótima disposição emocional. Apavitrah pavitro va significa que não importa a condição psicológica que nos encontramos. Com a mente pura ou impura, passando pelas condições da vida material, se conseguimos lembrar do Senhor Kṛṣṇa de olhos de lótus, então nos tornamos limpos externamente e internamente. Apavitrah significa mente contaminada e pavitra significa liberdade ou mente livre. Então temos duas condições, a nossa mente pode estar descontrolada produzindo inúmeros desejos e emoções que a contaminam gerando muita dor e ansiedade. Ou nossa mente pode estar em equilíbrio, serena e tranquila sob nosso controle. Segundo a Bhagavad Gita 6.6, a mente pode ser nossa melhor amiga ou nossa pior inimiga. Para o bem da nossa saúde mental temos de aceitar os sinais confusos como “NÃO” porque o sim é inconfundível e pode ser acionado com a inteligência que é superior à mente inimiga. Portanto, este mantra diz, apavitrah pavitro va, seja contaminado ou liberado, controlado ou descontrolado, não importa, sarvavastham gato pi va, significa todos eles, em qualquer condição psicológica de vida que você possa estar. E na sequência o mantra diz yah, qualquer um; smaret, significa lembrança e depois pundarikaksam que os olhos de Kṛṣṇa são como pétalas de lótus, ou seja, os olhos de Deus ou Kṛṣṇa não são vermelhos como os olhos raivosos prontos para amaldiçoar seus filhos por suas falhas. Pelo contrário, Yah smaret pundarikaksam sa bahya… Bahya significa externamente nosso corpo grosseiro pode se contaminar devido à influência da mente descontrolada. Na filosofia e teologia, o conceito de corpo contaminado ou impuro pode ser visto em diferentes prismas. Platão e Aristóteles abordaram a natureza e a importância do corpo na experiência humana pautada com valores éticos e morais. Na teologia Cristã, o corpo material impuro reflete a sexualidade ou o erotismo. Já na teologia da filosofia Védica, o corpo impuro reflete os Gunas inferiores rajas e tamas pelos quais a mente expande a sua influência nos sentidos que trazem conhecimento ou movimentam o corpo. Sendo assim, em equilíbrio sattva guna como vimos anteriormente, o corpo pode se ocupar em diferentes atividades incluindo a sexualidade humana em perfeito equilíbrio psicológico. Em contrapartida, a palavra Abhyantaram significa internamente. Internamente eu sou espírito ou atma. O corpo interno e externo pode estar puro ou impuro dependendo da disposição mental. E por fim, as últimas palavras importantes deste mantra diz: sa bahya abhyantaraṁ śuciḥ śrī viṣṇu śrī viṣṇu śrī viṣṇu, nós podemos estar na concepção corporal da vida ou na concepção espiritual da vida, seja ele impuro ou puro, em qualquer condição, aquele que se lembra de Kṛṣṇa ou Visnu que tem olhos de lótus com um sorriso de lótus (que simboliza plena compaixão), ele imediatamente se purifica interna e externamente bahyabhyantaram. Assim, enquanto lembramos de Kṛṣṇa, nós somos sucih, nós estaremos com a mente sob controle e puros internamente e externamente. Na Bhagavad Gita (8.8.9.10) Kṛṣṇa mesmo está fazendo um convite para voltarmos para sua companhia na morada eterna livre de dualidades ou ilusões: “Com mente inabalável, vinculado por meio de yoga disciplinado, alcança-se a suprema Pessoa divina, sempre pensando Nele. O indivíduo deveria lembrar-se [Dele] como o observador ancestral e governante permanente, menor que o menor, o criador de tudo, com forma inconcebível, luminoso como o Sol, além da escuridão. Na hora da passagem, repleto de devoção e poder de yoga, a mente imóvel, fixando o ar vital entre as sobrancelhas, ele alcança essa suprema Pessoa divina”. Vamos seguir na reflexão do próximo requisito para os rituais acontecerem com primazia.
  4. Doações aos Sacerdotes: Na Bhagavad Gita, a prática de dar remuneração ou doação (daksina) aos sacerdotes após a realização de rituais védicos possui razões psicológicas significativas e podemos refletir estes temas tanto no ponto de vista da ética da ação quanto a espiritualidade nos ensinamentos do texto. Primeiramente devemos pontuar que os sacerdotes que estamos nos referindo dentro do estamento social védico são brahmanas. Kṛṣṇa e os textos védicos atribuem grande importância aos brahmanas que são os sacerdotes e estudiosos das escrituras. Os brahmanas, vivem com o predomínio de sattva  (bondade), executam atividades como o controle dos sentidos e da mente. As qualidades dos brahmanas são tranquilidade, autocontrole, austeridade, limpeza, satisfação, tolerância, retidão simples, devoção a Kṛṣṇa, misericórdia e veracidade (Srimad Bhagavatam 11.17.16).
    Existem muitas razões pelas quais Kṛṣṇa enfatiza o valor dos brahmanas e a importância de fazer doações a eles. Primeiramente os brahmanas são considerados os guardiões do conhecimento védico e das práticas espirituais. Eles estudam e preservam as escrituras, interpretam os rituais e ensinam as práticas corretas de adoração e devoção. Toda sociedade humana civilizada tem certo nível de cultura e conhecimento e a preservação do conhecimento é crucial para a continuidade da cultura, filosofia e espiritualidade. Os brahmanas surgem de famílias que estimulam a educação com treinamento para que sejam capacitados a desempenhar o papel de mediadores entre os devotos a natureza e o divino. Eles realizam rituais e cerimônias que facilitam a conexão dos devotos com Kṛṣṇa e outras divindades, ajudando a criar um ambiente propício para a realização espiritual e a purificação. A sociedade védica era estruturada em quatro varnas (estamentos sociais), e os brahmanas ocupavam o topo dessa hierarquia devido ao seu conhecimento e práticas espirituais. O respeito e as doações que lhes são ofertadas ajudam a manter a ordem e a harmonia social, reconhecendo o valor do conhecimento e da espiritualidade. Fazer doações aos brahmanas é considerado uma ação de dharma (dever). A prática de dar não é apenas uma expressão de generosidade, mas também um meio de acumular punya (méritos) espirituais. Por outro lado, a prática de dar não é apenas um protocolo da etiqueta social para expressar que sou uma pessoa boa e assim acumular crédito piedoso. Acima de tudo a doação é um gesto de amor. Quando chegamos no ponto de fazer a doação livre de qualquer camada de condicionamentos chegamos na última camada de fazer tudo para satisfação do outro e em última análise ao Supremo Senhor Kṛṣṇa. Ao participar de rituais e oferecer uma doação cria-se uma sensação de cumprimento e satisfação emocional. O ato de dar deve proporcionar alegria e um sentimento de conexão com a tradição, contribuindo para a autoestima e o bem-estar psicológico do doador.
  5. A Fé : A palavra “fé” etimologicamente no latim “fides” significa confiança, lealdade, credibilidade e até mesmo uma promessa ou garantia. Em sânscrito shraddha (fé) significa uma confiança inabalável em algo sublime. Este tema é tratado no capítulo 17 da Bhagavad Gita com o título “ As divisões da fé” mas inicia com o questionamento de Arjuna no fim do capítulo 16 sobre pessoas ignorantes sem fé que rejeitam as escrituras. Historicamente, esta passagem comprova que mesmo há mais de cinco mil anos havia pessoas psicologicamente perturbadas que não acreditavam em Kṛṣṇa e nas escrituras sagradas dos Vedas. Nesta passagem, Kṛṣṇa responde nos textos 16 e 17: “Assim a ignorância os confunde. Divagando por muitos estados mentais, envoltos na rede de ilusão, aferrados à gratificação do desejo, caem num inferno imundo. Tomados completamente por autoestima, obstinados, repletos de orgulho e presunção devido à riqueza, hipocritamente realizam oferendas só de nome, sem consideração pelas regras”. É importante frisar que nesta passagem Kṛṣṇa está desconstruindo a ideia da execução de rituais de fachada ou sem a fundamentação nas escrituras, doação ou caridade, o cantar de mantras e o compromisso da fé. Quando um ritual acontece só por nome, entretenimento entre amigos, protocolo social etc. isso significa que é uma aparência ou apresentação performática que não corresponde à realidade ou verdade. A fé não é apenas uma decisão psicológica ou opções religiosas como afirma alguns acadêmicos com tendência ao ceticismo. No campo da medicina, existe o termo “medicina da fé”. A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), referência na medicina brasileira, publicou o mais completo documento sobre a relevância da espiritualidade e de atributos como a compaixão e o perdão no tratamento de diversas doenças. A ciência concluiu que as pessoas com alguma fé ou espiritualidade têm possibilidade de cura até de doenças muito graves. Um dos trabalhos mais interessantes foi desenvolvido pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com cristãos. Ele atestou que ir à igreja ao menos uma vez por semana pode reduzir a mortalidade de 20% a 30% em um período de até quinze anos. O ponto básico para explicar o papel da fé na saúde é associá-la ao modo de ver a vida. “Esses pacientes costumam ser mais otimistas e aderir ativamente às terapias”, diz Sidnei Epelman, oncologista pediátrico do Hospital Infantil Sabará e presidente da Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer.
    Ainda sobre Shraddha ou fé em sânscrito é uma palavra composta em duas sílabas, Shra significa coração e ddha é a entrega, ou seja, Shraddha, diz respeito a posição da entrega do coração. Já falamos sobre as influências da natureza material (gunas) que se implantam no coração. Nosso mestre Srila Prabhupada explica: “Portanto, ele desenvolve sua fé conforme a posição que o coração estabeleceu em contato com um modo específico da natureza material. Deve-se compreender que se o coração de alguém está no modo da bondade, sua fé também está no modo da bondade. Se seu coração está no modo da paixão, sua fé também está no modo da paixão. E se seu coração está no modo da escuridão, na ilusão, sua fé também fica com essa mesma contaminação. Assim, encontramos diferentes espécies de fé neste mundo… Assim, como afirmamos, a fé é um ingrediente importante e natural em todas situações da vida. Como compressão mais ampla ou psicologia geral, quando a fé surge, os devotos de qualquer escola espiritualista e no nosso contexto do Bhakti Yoga, ficam imersos na esperança ou transbordamento de ansiedade super positiva.
    A conclusão é que se nos engajamos nas práticas rituais com fé associada ao conhecimento, equilíbrio ou bondade, com certeza vamos criar um ambiente mental e emocional propício que facilite o sucesso dos rituais. Cada um desses elementos que elaboramos – dar Prasadam, conformidade com os textos sagrados, cantar mantras e a fé – atuam como catalisadores que não apenas engrandecem a experiência ritual, mas também transformam a mente e o espirito dos participantes. Srila Prabhupada confirma: “A consciência de Kṛṣṇa é o processo pelo qual a consciência ilusória é convertida em Brahman, ou o Supremo. Quando a mente se absorve em plena consciência de Kṛṣṇa, diz-se que está em samādhi, ou transe. Qualquer atividade feita com essa consciência transcendental é chamada yajña, ou oferenda (sacrifício) em favor do Absoluto. Nesta condição de consciência espiritual, o contribuinte, a contribuição, a execução, o executor ou líder da execução e o resultado ou ganho último — tudo — se une no Absoluto, o Brahman Supremo. Este é o método da consciência de Kṛṣṇa.
    Os Samskaras ou Ritos de Passagem
    A palavra sânscrita samskara significa impressões psicológicas ou emocionais que contribuem para a formação de padrões comportamentais. Na Bhagavad-gītā (Capítulo 3, versos 27, 28, 29 e 30), encontramos uma importante citação a este respeito: “As ações estão sendo realizadas inteiramente pelos modos da natureza; uma alma confundida pelo egotismo acredita deste modo: “Eu sou o agente”. Segundo Bion, psicanalista pioneiro nas dinâmicas de grupo disse que: “a mente tem a capacidade inata de criar conceitos que ao encontrar sua realização no mundo externo, transformam-se em realizações”. Ou seja, nós imaginamos que estamos cumprindo nossos deveres dentro dos estamentos sociais e nos sentimos muitas vezes vaidosos e arrogantes pensando que somos a causa última quando na verdade somos controlados pelos gunas ou as cordas da natureza material. A palavra sânscrita “ahamkara” que é traduzida pejorativamente como “ego falso” literalmente no dicionário sânscrito é traduzida como “o fazedor do eu”. Ou seja, podemos construir nossa identidade quando entendemos a importância de uma boa conduta ou princípios verdadeiros. Assim, passamos a ter a percepção de que os gunas estão atuando e é possível não se aferrar nem aos modos (gunas) nem à ação. As amarras dos gunas estão nos prendendo há muitas vidas e suas impressões ou nós apertados podem ser desatados com os ritos de passagens samskaras que vem de uma poderosa tradição. Existem dez rituais samskaras importantes que foram descritos por Srila Prabhupada para lograrmos sucesso na vida. Vamos falar brevemente sobre eles sem entrar em detalhes sobre seus procedimentos que já foram descritos no manual de samskaras.
    Os Dez Samskaras e suas Influências Psicológicas
    Como já enfatizamos, os samskaras são os rituais de passagem na tradição védica que marcam as várias etapas da vida de uma pessoa, desde o momento do nascimento até a morte. Estes dez ritos dentre centenas de ritos do panteão hinduísta são os mais importantes mencionados por Srila Prabhupada fundador da Sociedade Internacional para Consciência de Kṛṣṇa (ISKCON). Ele mencionou sobre samskaras em várias de suas obras e palestras. Vamos falar sucintamente dos efeitos psicológicos destes rituais na cerimônia de casamento, ritos para crianças e culminando no derradeiro rito da morte. Como já foi dito anteriormente, na sociedade humana os rituais foram tomando diferentes formas segundo a fé específica do executante. Todo ritual é composto por parafernálias e procedimentos, mas Kṛṣṇa enfatiza que mais importante que oferendas materiais nos rituais é jñāna-yajñaḥ ou a oferta do conhecimento. O verdadeiro conhecimento culmina na compreensão da relação pura com todos os seres onde a consciência de Kṛṣṇa brota como uma árvore florida com muitos frutos saborosos. Ao aprimorar o conhecimento, os rituais passam a ter significados sagrados causando mudanças significativas na consciência muito além das representações materiais. Os dez rituais que acontecem nos momentos considerados importantes na vida são tecnicamente chamados de Vivaha (Rito do casamento), Garbhadanam (Rito para Concepção de uma criança), Pumsavana (Rito para ter filho saudável), Simantonayanam (Partindo cabelo da esposa e ), Sosyanti homa (Rito para a mulher prestes a dar à luz), Jata karma Nama karana (Cerimônia do nascimento e aposição de nome), Anna prasana (Primeiros grãos), Vidyarambha (Aprendendo o alfabeto), Upanayanam (Recebendo iniciação ou batismo) e Antyesti (Últimos ritos funerários).
    Os manuais sobre samskaras mais comuns na Índia foram compilados para pessoas interessadas em karma (acumular frutos materiais), e prescrevem pujas ou homenagens aos devatas e pitrs para prosperidade material. O mestre Srila Gopal Bhatta Goswami compilou o livro Sat Kriya Sara Dipika, há pouco mais de 500 anos, como um manual védico de samskaras para praticantes de Bhakti Yoga vaisnavas ou devotos de Kṛṣṇa. Ou seja, em seu procedimento prático para os samskaras, ele substitui a adoração aos deuses (que trazem benefícios materiais transitórios e consequentemente estimula os desejos passageiros da mente perturbada) para adoração a Kṛṣṇa que traz conexão espiritual e ausência de ansiedades mentais.

⦁ Vivaha: Ritual de Casamento
Na tradição védica o casamento é a transição de bramachari (ordem de vida monástica onde se pratica o celibato) para grihasta (ordem de vida com responsabilidades familiares). Ambas são fases da vida importantes para se criar Vriti (memórias) que irão causar influência positiva ou negativa na mente da pessoa por toda vida. Idealmente na tradição o bramachari dedicava seu tempo exclusivamente aos estudos e era treinado de acordo com o foco na sua natureza psicofísica para algum tipo de trabalho como oportunidade de conexão consigo mesmo e Kṛṣṇa. A prática do celibato ou abstinência sexual praticada por um período da vida de uma forma correta é saudável para o jovem em formação física e psicológica. A palavra vivaha em sânscrito deriva da raiz “va”, que significa “levar” ou “transportar”, e o prefixo “vi” é “levar de forma separada” ou “de maneira diferente”. Assim, “Vivaha” pode ser interpretada como “levar juntos” ou unir, em outras palavras manter vivo o casamento sagrado. Essa interpretação etimológica reflete o conceito do casamento como uma união sagrada, onde duas pessoas se juntam em uma nova jornada de vida em conjunto. O termo enfatiza a ideia de que, embora os indivíduos tenham suas próprias identidades, ao se casarem, eles se comprometem a caminhar juntos na vida, compartilhando responsabilidades e experiências e ajudando a se livrar do egoísmo. O casamento védico vivaha consiste em uma série de rituais altamente simbólicos e profundos que visam a consagração da união entre os noivos. Além disso, a cerimônia tem de ser tão bela e profunda que tem o poder de criar Vritis ou memórias positivas para influenciar psicologicamente na manutenção do casamento principalmente nas fases mais difíceis. O vivaha não é um contrato, mas a sacralização de uma união baseada no amor, no carinho, na confiança e no respeito. As sugestões dos votos para o casal juntamente com os atos que sucedem o ritual criam efeitos positivos na mente e consciência. Os votos ou promessas são muito fortes e belos, principalmente por falarem de um casal que se vê como igual e do amor que não é posse, mas escolha. Seguem alguns exemplos dos votos do esposo e esposa que consideramos relevantes pois adaptamos para o contexto moderno e ocidental onde o esposo diz: “Você não pode me possuir, pois eu pertenço a Kṛṣṇa e a mim mesmo, mas enquanto nós dois quisermos, eu te darei tudo que tenho para dar”. A esposa responde: “Você não pode me comandar, pois eu sou uma pessoa livre, mas eu te servirei de todas as maneiras que você precisar.” O esposo diz: “Eu juro a você que será o seu nome que vou honrar a noite, e os olhos para os quais eu sorrirei toda manhã”. A esposa diz: “Eu não direi a nenhum estranho as nossas desavenças e guardarei nossos segredos. Este é meu voto para você”. O esposo responde: Eu lhe aceito como minha esposa para sempre. E contigo ao meu lado eu nunca vou estar sozinho”. Esposa: “ Você é o meu verdadeiro amigo, o meu lar e o meu verdadeiro amor. Eu sou sua e serei para sempre”. O esposo conclui: “Neste dia e neste momento, prometo o resto da minha vida a você. Você acreditou em mim e eu acredito em você. E quando se acredita em alguém não é só por um minuto ou por um momento. É por toda vida, Hare Kṛṣṇa”. A interpretação desses votos na luz da psicologia pode ser feita considerando diversos aspectos emocionais, éticos e relacionais. Uma característica marcante nestes votos é a construção da união do casal com a manutenção plena da individualidade. O voto enfatiza a importância da autonomia individual. Ao afirmar “Você não pode me possuir, pois eu pertenço a mim mesmo e a Kṛṣṇa ou você não pode me comandar porque sou uma pessoa livre”, o casal destaca que, embora estejam comprometidos, sua identidade e liberdade pessoal não estão subordinadas e este acordo está sendo estabelecido. A auto expressão inteligente reflete um valor essencial na psicologia, onde as individualidades são fundamentais para uma relação saudável. A afirmação de que ele “pertence a si mesmo” sugere um respeito por sua própria identidade, que é crucial para a saúde mental e o bem-estar em um relacionamento. Outro ponto importante é o compromisso voluntário: A frase, “mas enquanto nós dois quisermos” indica que o compromisso no relacionamento é mutuamente desejado. Isso sugere que a relação é construída não por obrigação, mas por desejo e escolha, e isto gera uma conexão emocional saudável. Outro ponto importante nestes votos é a questão da generosidade: Ao dizer “eu te darei tudo que tenho para dar”, o esposo expressa seu desejo de se doar e apoiar a esposa. Essa disposição de contribuir no relacionamento é um aspecto importante de um compromisso amoroso, onde ambos os parceiros se esforçam para se apoiar mutuamente. Ao mencionar Kṛṣṇa, o voto aprofunda a relação do casal para o nível espiritual. A vida matrimonial com espiritualidade significa colocar Deus ou Kṛṣṇa no centro da família permitindo que os parceiros com filhos se sintam parte de algo maior do que eles mesmos. Nós sabemos que o contato inicial do casal se dá a partir da atração física e logo depois no segundo momento a atração passa a ser psicofísica onde o casal passa a apreciar mutualmente as virtudes ou qualidades um do outro. Srila Prabhupada disse em outras palavras que um casamento pode suportar todas dificuldades, mas não suporta a competição proveniente de rajas ou o modo da paixão. A apreciação é o oposto da competição que condiciona as pessoas a focar em detalhes negativos ao invés disto sattva guna ou o modo da bondade é o estado psicológico que aciona a inteligência para enxergar apenas as virtudes. A inclusão da referência espiritual sugere que os membros da família estão alinhados em seus valores, virtudes e princípios, o que pode fortalecer a convivência e a harmonia de todos.
A análise psicológica do voto “você não pode me possuir” indica que há um espaço seguro para cada parceiro ser quem realmente é sem medo de controle ou possessividade. Esse espaço é fundamental para o desenvolvimento de uma relação saudável e equilibrada. Reconhecer que cada um pertence a si mesmo e ainda assim se comprometer um com o outro ressalta a importância da comunicação e da compreensão no relacionamento. A ideia de alma gêmea é anti filosófica ou falsa porque não existe a situação de uma alma se fundir em outra e perder a individualidade própria. Na Bhagavad Gita (2.12) Kṛṣṇa confirma: “Jamais eu não existi, ou tu, ou estes governantes do povo; tampouco deixaremos de existir em algum momento”. Para dar ênfase sobre a importância da individualidade das almas, Kṛṣṇa diz que mesmo depois da morte não perderemos nossa individualidade. Assim, a situação romântica de uma laranja encontrar a outra metade da sua laranja para os dois se tornarem um é ilusão ou expectativa falsa. Na verdade, cada cônjuge deve ser uma laranja inteira e se completar mais ainda com o outro que também estará completo. Este conceito filosófico e psicológico promove um lugar com ambiente em que ambos se sentem respeitados e valorizados como indivíduos. Os votos do casal reforçam a ideia de que, embora os parceiros sejam indivíduos independentes, eles também são co-criadores de sua vida juntos. Essa visão colaborativa reforça a importância de o casal trabalhar como um time em um relacionamento onde existe educação em todos aspectos e acima de tudo respeito e admiração mútua. O reconhecimento da individualidade de cada um, combinado com a disposição de dar e compartilhar, exige um alto nível de respeito e empatia, características fundamentais para relacionamentos saudáveis em sattva guna. Podemos até falar sobre a unidade das almas no sentido de semelhança de ideias e objetivos espirituais. Na prática isto é manifestado na vontade do casal de atingir esses objetivos por meio do compartilhamento de estudo ou leituras, do esforço nas práticas espirituais e na autodisciplina. Casais que têm essa unidade de almas poderão tornar o casamento um êxito, mesmo que não se faça presente nenhum outro fundamento desejável para ele.
O casamento vivaha tem inúmeros atos cheios de impactos emocionais positivos na mente ou consciência. Segue uma breve análise sobre estes atos:
I. Saudações para entrada do noivo: Este ato marca o início da cerimônia com a entrada do noivo sozinho demonstrando confiança, coragem, proteção e bom humor. Ele é acolhido pela mãe da noiva com incensos e guirlanda de flores. Esta entrada do noivo promove um senso de aceitação. A saudação da mãe vai fortalecer o sentimento de pertencimento e a validação social, crucial para o bem-estar emocional durante o casamento.
II. Oferecimento de respeitos e pedido de bênçãos aos mestres: Logo depois da entrada o noivo oferece reverências a figura do mestre e os membros mais velhos da família e parentes. Este ato é o reconhecimento da tradição familiar e abençoa a sabedoria acumulada gerando um senso de segurança e apoio. Este ato ajuda a cultivar gratidão e a fortalecer os laços familiares e sociais.
III. Saudações para entrada da noiva com canto de mantras alegres descrevendo as atividades de Sita Rama ou Radha Krishna. A noiva deve estar muito bem ornamentada com uma entrada triunfal acompanhada com suas amigas. Na psicologia, isso pode ativar sentimentos de esperança, segurança e inspiração, reforçando os valores da devoção e da harmonia no relacionamento social e familiar. A noiva ficará emocionada sentindo-se protegida aos sons de louvor às divindades ou deidades que são símbolos do amor ideal.
IV. Discurso de Boas-vindas: Em seguida o sacerdote ou algum mestre sênior deve fazer um discurso de boas-vindas se preocupando em criar um ambiente acolhedor e festivo, ajudando todos a se sentirem confortáveis e felizes. O sacerdote ou mestre de cerimônia que fará o uso da fala tem de conhecer um pouco da mentalidade e nível sócio cultural dos convidados e principalmente dos familiares presentes. Desta forma, sua fala será respeitosa, inclusiva e agradável promovendo aceitação de todos presentes, mesmo que sejam de outras crenças. Este momento do discurso é essencial para o acolhimento e aceitação dos presentes. No decorrer da cerimônia o sacerdote terá o desafio de observar a participação de todos com alegria e ao mesmo tempo manter a solenidade da cerimônia para saúde espiritual e emocional dos envolvidos.
V. União Sagrada das Famílias: Neste ato o pai da noiva oferece sua filha ao noivo colocando a mão direita dela em cima da mão direita do noivo. Na sequência os membros das duas famílias são convidados a colocarem as mãos em cima das mãos dos noivos. Este ato é importante para enfatizar a união das duas famílias, destacando o apoio mútuo e a interdependência. A integração familiar é crucial para o fortalecimento dos laços sociais e emocionais, criando uma rede de suporte que beneficia o novo casal.
VI. Pronunciamento dos Votos: Ao pronunciar os votos, os noivos expressam suas intenções e planos para o futuro. Isso é fundamental para a construção da confiança e da união emocional que já refletimos acima.
VII. Trocas de símbolos sagrados como guirlandas de flores, alianças e outros adornos como símbolos de união indissolúvel: na psicologia, esses símbolos ajudam no sentimento de segurança e permanência na relação, favorecendo a construção de um relacionamento estável.
VIII. Ritual do Fogo Sagrado: em seguida, o fogo sagrado é aceso e deve ser visto como um elemento purificador e transformador. Este ritual simboliza a união das almas e a santidade do casamento. Na psicologia, isso pode representar um novo começo, oferecendo aos noivos um espaço de transformação pessoal e conjunta. Quando os participantes da cerimônia jogam os grãos com ervas no fogo (samagri) significa que eles estão ofertando também sua mente e seus egos falsos para queimar ou purificar.
IX. Os Sete Votos: Este ato marca o fim do cerimonial do casamento e demonstra o grande respeito que o homem deve ter pela sua esposa. Os sete passos da mulher iniciam com o pé direito em cima de uma linda mandala que representa a benção que o marido irá proferir publicamente. Todos os presentes participam deste ato testemunhando as bênçãos exclusivas do homem para mulher. Cada um dos sete votos representa um aspecto crucial do relacionamento, como amor, respeito e apoio. Esses compromissos são fundamentais para promover uma base emocional saudável, reforçando a empatia e a colaboração no relacionamento.
X. O casal oferece presentes e convida a todos para uma dança circular e um suntuoso almoço ou jantar: já falamos anteriormente sobre a importância de dar alimentos no fim dos cerimoniais. A oferta de alimentos, presentes e a dança circular ao som do maha mantra Hare Kṛṣṇa além de simbolizar a alegria compartilhada e a celebração coletiva, este ato reforça a ideia de comunidade e união, promovendo um ambiente positivo onde todos se sentem incluídos, fortalecendo laços sociais e emocionais.

  1. Garbhadanam (Rito para concepção de uma criança): A palavra garbha tem dois significados contextuais: o ventre da mãe, e o embrião ou feto. E o termo Ādhānam significando a transferência ou colocação do feto no ventre da mãe. A palavra sânscrita que é antônimo da palavra garbhadana samskara é citada no primeiro capítulo da Bhagavad Gita (1.40) como jāyate varṇa-saṅkaraḥ que foi traduzida como população indesejada. Em outras palavras, crianças que nasceram sem planejamento prévio e consequentemente passaram a trazer problemas para sociedade. No dicionário sânscrito varṇa-saṅkaraḥ também é traduzida como aquele que nasce e não tem um lugar. Como contraponto, alguns pensadores da modernidade como Jean-Jacques Rousseau afirmam que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Thomas Hobbes, por outro lado, defendia que o homem nasce mau e precisa ser educado e civilizado para viver em sociedade. A filosofia védica afirma que toda alma é boa e pura e quando aceita o corpo material ela se contamina de acordo com seu próprio karma e por isso desde o próprio nascimento ela pode manifestar virtudes ou maldades. A Bhagavad-gītā (13.22) confirma: kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ’sya sad-asad-yoni janmasu. “Dessa forma, a entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isto decorre de sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida”. Este texto confirma que podemos nascer em bons ou maus ventres e há casos de crianças manifestarem sintomas de psicopatia ou doenças mentais desde a tenra idade mesmo com todo apoio educacional vindo de boas famílias. Muitas vezes os desvios de comportamento humano decorrem do parto indesejado. Assim, as escrituras védicas prescrevem o momento da concepção com base em várias considerações. Saúde física dos pais: Por exemplo, se os pais não estiverem saudáveis ​​no momento da concepção, a criança será afetada. A condição mental dos pais principalmente influenciará a criança. Se os pais se concentrarem apenas em artha, kama (prazer material ou sensual), a criança também será influenciada por artha, kama e poderá se tornar um grande materialista sem interesse na espiritualidade. O Srimad Bhagavatam (3.14.39.40) relata os problemas da gravides de Diti e seu esposo sábio Kaśyapa Muni por não terem respeitado o horário certo para concepção e que por isso gerou uma dinastia de homens maus com tendência malévola ou demoníaca. A previsão do nascimento dos seus filhos foi cumprida da seguinte maneira: “Ó mulher arrogante, terás dois filhos insolentes (Hiranyakashipu e Hiranyaksha) nascidos de teu ventre condenado. Ó desafortunada, eles causarão constante lamentação para todos os três mundos! Eles matarão pobres e impecáveis entidades vivas, torturarão mulheres e enraivecerão as grandes almas”. Srila Prabhupada comenta no Srimad Bhagavatam (4.22.53): “O estado mental do pai e da mãe antes do ato sexual decerto afetará a mentalidade da criança a ser gerada. Uma criança gerada por luxúria talvez não venha a ser o que os pais desejam. Como afirmam os śāstras, yathā yonir yathā bījam. Yathā yoniḥ indica a mãe, e yathā bijam, o pai. Se o estado mental dos pais for preparado antes de eles terem relações sexuais, é certo que a criança que gerarem refletirá sua condição mental. Quais as recomendações para o casal estar com o estado mental puro ou saudável? Srila Prabhupada recomenda que no dia planejado para o ato sexual o casal deve ter a finalidade de gerar uma criança especial, não apenas como um desejo pessoal, mas como um serviço a Deus. As intenções espirituais e ajustes da mentalidade são consideradas fundamentais para a qualidade da alma que nascerá. Durante este ritual que é muito íntimo, o casal oferece orações e mantras para invocar bênçãos, pedindo a proteção e a orientação de deidades do altar da família. A psicologia tem estudado vários aspectos emocionais da gestação que podem gerar sentimentos diversos, desde a alegria, o medo, a ansiedade, insegurança e até mesmo a depressão. Devido a esta ambivalência afetiva, a maioria dos samskaras são destinados a gravides ou ao bem-estar da criança e da futura mãe. Seguiremos descrevendo brevemente os rituais com foco nos efeitos psicológicos já que os procedimentos estão detalhados no manual de samskaras.
    ⦁ Pumsavana (Rito para escolha do sexo da criança e para criança ser saudável): O pumsavana é um ritual védico realizado geralmente no terceiro mês de gestação que tem como objetivo assegurar um nascimento saudável de uma criança e, tradicionalmente, é desejado o nascimento de um filho masculino. No entanto, para um devoto de Kṛṣṇa seguidor da filosofia vaisnava não pode haver preconceito porque ele entende que tanto nascimento de menino quanto de menina é visto como bênção divina. O mais importante neste rito não é o foco no gênero biológico da criança porque independentemente do sexo, o que os pais mais desejam é que ela seja saudável e virtuosa. Este foco positivo pode reduzir a ansiedade dos pais, promovendo um estado mental mais calmo e confiante durante a gestação. A realização do ritual pumsavana, pode ajudar os pais a sentirem que estão tomando medidas adequadas para criar um ambiente propício à saúde do bebê. O ato de participar de práticas espirituais pode contribuir para aliviar o estresse e a preocupação associados à gravidez. Para os devotos de Kṛṣṇa, o reconhecimento de que tanto filhos quanto filhas são presentes divinos promove a aceitação e a valorização da diversidade. Isso pode ajudar os pais a se sentirem igualmente abençoados, independentemente do sexo da criança. O pumsavana é uma oportunidade para os pais fortalecerem sua conexão espiritual com Kṛṣṇa, pedindo bênçãos não apenas para a saúde física da criança, mas também para seu desenvolvimento espiritual. Essa intenção ajuda a cultivar um ambiente amoroso e espiritualmente enriquecedor para o futuro da criança. A prática deste ritual incentiva os pais a manterem um ambiente espiritual saudável, criando uma atmosfera que beneficia tanto a mãe quanto o bebê, o que é importante para o desenvolvimento emocional e psicológico da criança criando uma atmosfera emocional ao redor da gravidez, reforçando o apoio mútuo e o amor. O pumsavana também serve como um momento de reflexão sobre as responsabilidades dos pais que devem se concentrar nos valores e na educação que desejam transmitir à criança, reforçando o compromisso com a criação de filhos saudáveis e virtuosos. Os pais devem compreender que a criança é uma alma que pertence a Kṛṣṇa e é seu dever ensiná-la sobre valores espirituais e éticos, independentemente de seu sexo. Essa compreensão promove uma abordagem de parentalidade consciente e espiritual durante o rito pumsavana cujo procedimento é muito simples, mas muito eficiente.
  2. Simantonayanam (Partindo cabelo da esposa): Este ritual simantonnayanam deve acontecer no quarto, sexto ou oitavo mês da primeira gravidez. Se as cerimônias anteriores de garbhadhana e pumsavana ainda não foram feitas, é possível executá-las no mesmo dia da cerimônia simantonnayanam. Este procedimento é especialmente direcionado para fortalecer a união do casal durante o processo da gravidez.
    Conforme o referencial psicanalítico, a relação pai-bebê estabelecida durante o período gestacional, por meio da construção de uma imagem mental do bebê e da interação entre ambos, tem importante consequência para a relação pai-filho(a) após o nascimento. Existem estudos na área da psicologia que possibilitam a investigação das expectativas e os sentimentos de futuros pais em relação ao seu bebê. Estes estudos concluíram que os pais constroem uma imagem mental do bebê, incluindo suas características físicas e psicológicas, bem como o sexo. A participação do casal na escolha do nome e suas preocupações com a saúde da criança com o acompanhamento dos exames pré-natal demonstra a unidade do casal no interesse comum do processo gestacional. Quanto mais uma criança cresce e vai se mexendo seus pais se enchem de alegria e se emocionam ao tocar na barriga da mãe. Este intercâmbio emocional entre os pais com o filho ainda dentro do útero marca o início do amor entre eles. Muitas vezes, a mãe de repente sente desejo de comer algo.
    O coração e a consciência do feto são responsáveis por tudo isso. O corpo de uma mãe atende às necessidades fisiológicas de seu bebê. Quanto ao desenvolvimento mental e espiritual da criança no útero, torna-se extremamente importante iniciar a educação no útero e proporcionar o simantonnayanam Samskara. O poder receptivo de uma criança se desenvolve ao realizar este Samskara. A mente é despertada através de mantras que são entoados e a criança obtém a oportunidade de compatibilidade dos planetas no momento do seu nascimento através desse Samskara. Além disso, também é dito que qualquer infortúnio causado pelo destino ou karma também é evitado e a criança não nascida é extremamente afortunada com este Samskara. Podemos dizer que as festas de chá de bebê de hoje são versões modernizadas dos rituais pumsavana e simantonnayanam. O chá de bebê (que é um entretenimento social com troca de presentes) poderá acontecer e ser aprofundado com esses rituais védicos simultaneamente, se possível devido ao costume ocidental. Esses rituais que acontecem na gravidez reforçam a ideia do sagrado feminino onde a mulher recebe todo carinho especial do marido, familiares e amigos para confortá-la nos momentos da gravidez.
    O rito simantonnayanam onde o marido parte o cabelo da mulher ao meio pode ser interpretado como um modo de canalizar a energia e força feminina para beneficiar a saúde e o bem-estar da mãe e da criança que está por vir. Este rito marca uma transição na vida da mulher, de esposa a mãe.
  3. SOSYANTI HOMA (Rito para a mulher prestes a dar à luz): Antes do nascimento da criança, em meio a celebração com canções e instrumentos musicais tocando, a esposa deve ser levada para o aposento de confinamento (sutika grha) que poderá localizar-se na parte sudoeste da casa, de face para o leste. Este rito caseiro só será possível com a presença de uma doula (serva em latim) , uma profissional treinada que oferece suporte físico, emocional e psicológico com informações para as mulheres antes, durante e depois do parto. A maioria dos partos no ocidente acontecem em ambientes hospitalares e com planejamento prévio é possível fazer arranjos para um parto humanizado e espiritualizado. Quando a esposa estiver para ter a criança, o marido deve realizar este rito para o parto seguro da criança e boa saúde da esposa.
  4. Jata Karma (Cerimônia do Nascimento): Este ritual é descrito no Srimad Bhagavatam (10.5.3) na cerimônia do nascimento transcendental de Kṛṣṇa: “Após banhar-se, purificar-se e vestir-se devidamente, seu pai (Nanda Maharaj) convidou brahmanas que sabiam como recitar mantras védicos. Após estes brahmanas qualificados terem recitado hinos védicos auspiciosos, providenciou para que a cerimônia de nascimento fosse celebrada para seu filho recém-nascido (Kṛṣṇa) conforme as regras e regulamentos”. Srila Prabhupada comenta a este respeito no Caitanya Caritamrta Adi III, p.116: Vemos que há quinhentos anos atrás no nascimento do Senhor Chaitanya Mahaprabhu todas estas cerimônias foram realizadas rigidamente, mas atualmente tais ritos quase nunca têm lugar. Em geral uma mãe grávida é mandada para o hospital, e assim que sua criança nasce, esta é lavada com um antisséptico e isto conclui tudo. Jata karma é realizada imediatamente ao nascer a criança, dentro do sutika grha. Esta cerimônia também se chama medha janana, uma cerimônia para produzir inteligência na criança.
    Utiliza-se o ghee nos rituais porque segundo o ayurveda ele produz beleza, memória, intelecto, talento, brilho, sêmen forte e vida longa. No Jata karma também é possível executar a cerimônia nama karana onde os pais revelam o nome ao filho pela primeira vez antes de anunciá-lo em público. A percepção psicológica desta cerimônia é a dignidade e respeito com a criança recém-nascida. Ao dar o direito ao filho de saber sobre seu nome antes de qualquer outra pessoa, os pais estão demonstrando que vão protegê-lo e respeitá-lo. Sabemos no senso comum que quando oferecemos respeito é natural que recebamos respeito de volta. Esses rituais incentivam os pais a refletirem sobre suas responsabilidades e sobre o propósito de criar e educar uma nova vida, o que pode levá-los a uma abordagem mais consciente e responsável em relação à educação e formação da criança. As cerimônias de Jata Karma e Nama Karana têm um papel significativo na formação da vida social, emocional e espiritual de uma criança e de seus pais. Eles ajudam a estabelecer conexões ou fortalecem vínculos familiares e proporcionam um senso de segurança e pertencimento. Portanto, o impacto psicológico positivo dessas cerimônias acaba influenciando não apenas o bem-estar imediato, mas também o desenvolvimento saudável da criança e a preparação dos pais para a nova fase de suas vidas.
  5. Anna prasana (Alimentando a criança com os primeiros grãos): Esta cerimônia é a mais querida dos pais e deve acontecer no sexto ou oitavo mês. Além de reforçar a proteção da saúde da criança este rito orienta na questão vocacional. A criança que já está engatinhando tem a oportunidade de escolher os objetos que serão oferecidos e os familiares e amigos se deleitam com a escolha que poderá indicar sua tendência psicofísica futura. Este momento lúdico auxiliará os pais para ficarem atentos com a educação do filho. Os sinais dos primeiros dentes são indicação de que a criança está pronta para alimentos sólidos. Esta cerimônia marca a introdução de novos alimentos estimulando a curiosidade da criança e a exploração de novos sabores. Até este momento, seu alimento foi leite materno o que é importante para sua saúde futura. Ter essa experiência positiva em um ambiente cerimonial, cercada de apoio familiar, ajuda a criança a se sentir segura e confiante nesse novo papel. O evento ajuda a criar memórias afetivas ligadas à prasadam (alimento sagrado) e à família, o que pode influenciar a maneira como a criança se relaciona com a comida no futuro. Esta cerimônia não é apenas uma transição alimentar vegetariana; é também uma introdução à cultura e às tradições familiares. Isso ajuda a criança a desenvolver um senso de identidade cultural e pertença a um grupo. Enfim, a cerimônia anna prasana não apenas marca uma mudança física na dieta da criança, mas também tem efeitos psicológicos e emocionais profundos. Ao introduzir novos alimentos, a criança passa por um processo de aprendizado e adaptação que envolve desenvolvimento cognitivo, emocional, social e espiritual.
  6. Vidyarambha (Aprendendo o alfabeto início da educação): A cerimônia Vidyarambha, que marca o início da educação formal de uma criança no contexto védico, é um ritual significativo que geralmente ocorre quando a criança atinge a idade de cinco a seis anos. Essa cerimônia tem um profundo impacto psicológico e emocional na vida da criança e de sua família. A cerimônia simboliza o início da educação, criando uma sensação de expectativa e entusiasmo em relação ao aprendizado e estimula o respeito que a criança terá com todos professores durante sua vida. Ou seja, a cerimônia Vidyarambha pode motivar a criança a se engajar de forma positiva com o processo educacional ajudando a entender a importância do conhecimento e da sabedoria, promovendo um valor intrínseco ao aprendizado. A participação da família, amigos e professores na cerimônia fortalece os laços sociais e o apoio emocional. Esta rede de apoio é essencial para que a criança se sinta segura e valorizada em sua nova jornada do saber. O ritual proporciona um senso de pertencimento a uma comunidade que valoriza a educação, ajudando a moldar a identidade da criança dentro de um contexto cultural e espiritual.
    Durante a cerimônia, geralmente há orações e bênçãos para o sucesso e a sabedoria da criança. Essa conexão espiritual pode proporcionar segurança emocional e uma sensação de proteção ao longo de seu percurso educacional. O reconhecimento da educação como uma parte essencial da vida pode inspirar a criança a buscar não apenas conhecimento acadêmico, mas também crescimento pessoal e espiritual. Essa experiência marcante pode ter efeitos duradouros, impactando a forma como a criança vê a educação ao longo de sua vida.
  7. Upanayanam (Levando o discípulo de Volta para o Supremo): Upanayana ‘iniciação’ é um sacramento educacional. É um dos saṃskāras ou ritos de passagem que marcam a aceitação de um aluno por um preceptor, como um guru ou acharya. É a iniciação de um indivíduo em uma escola espiritualista tradicional. A tradição da escola Gaudya Vaishnava considera esta cerimônia como um renascimento espiritual para a criança ou futuro dvija, nascido duas vezes. Os pais que submetem os filhos aos rituais ou ritos de passagem prescritos pelos processos purificatórios (samskaras) têm a expectativa de celebrar o segundo nascimento do filho com aceitação voluntária de um mestre espiritual. O mestre espiritual aceita como seu discípulo somente aquele que indaga com sinceridade e deve estar disposto a receber o treinamento necessário e assim se preparar para o encontro com Deus Kṛṣṇa. Na Bhagavad Gita (4.34) Kṛṣṇa afirma de forma categórica: “Aprende isso mediante submissão, indagação minuciosa e serviço. Os conhecedores ensinarão conhecimento a ti, pois viram a Verdade”. A cerimônia upanayanam é indiscutivelmente o rito mais importante para os homens que desejam se preparar para o encontro com Kṛṣṇa. Esta cerimônia acontece na adolescência ou no caminho da fase adulta garantindo muitos direitos dentro da sua escola com responsabilidades ou deveres significando sua chegada à idade adulta.
  8. Antyesti (Os Últimos Ritos de passagem): Este é o último samskara, o rito final para santificar o corpo que está fazendo a passagem neste mundo material. Este rito marca a despedida do corpo físico e a transição da alma para a próxima existência. Este ritual tem um impacto psicológico significativo tanto para a pessoa que está partindo quanto para os entes queridos que permanecem. Para a pessoa que está partindo o rito antyesti auxilia na aceitação da realidade da morte. A compreensão do ciclo de vida e morte pode proporcionar uma sensação de paz e alívio, permitindo que a pessoa se prepare para a transição. A simples crença na continuidade pós morte ou a teoria da reencarnação por si só torna a pessoa responsável por seus próprios atos. Srila Prabhupada costumava citar um ditado Bengali: “Tudo que fizemos durante a vida será testado na hora da morte”. O termo anta-kāle significa a última fase da vida e é citado várias vezes nas escrituras como recurso ou linguagem filosófica preventiva. Vejamos algumas destas citações: “Este é o caminho de uma vida espiritual e piedosa, e o homem que a alcança não se confunde. Se ele atingir esta posição, mesmo que somente à hora da morte, poderá entrar no reino de Deus”. Bhagavad Gita 2.72. “Na hora final, aquele que parte lembrando-se apenas de Mim enquanto se desprende do corpo, vai ao Meu estado de existência; quanto a isso, não há dúvida. De fato, o indivíduo decerto alcança o mesmo estado de que se recorda enquanto deixa o corpo, Kaunteya, seja qual for esse estado, pois ele sempre causou esse estado de existência vindouro Bhagavad Gita (8.5.6) “Ó meu Senhor, mestre de todo o yoga místico, essa é a explicação do processo ióguico falado pelo senhor Brahmā [Hiraṇyagarbha], que é autorrealizado. Na hora da morte, mediante o simples procedimento de colocar sua mente a vossos pés de lótus, todos os yogīs abandonam o corpo material em completo desapego. Essa é a perfeição do yoga.” Srimad Bhagavatam (5.19.13) “Para alguém que, a fim de compreender a posição constitucional da Suprema Personalidade de Deus, pratica muito seriamente serviço devocional durante sua vida, fica-lhe garantido libertar-se deste mundo material, mesmo que, anteriormente, ele tenha se entregado a hábitos pecaminosos.” Confirma também isso a Bhagavad-gītā (9.30): “Mesmo que alguém cometa ações das mais abomináveis, se estiver ocupado em serviço devocional deve ser considerado santo, pois está situado na posição correta.”
    Não podemos deixar de citar os dois últimos mantras 17 e 18 do Sri Isopanishad que são recitados no fim do rito antyesti: “Que este corpo temporário seja reduzido a cinzas, e que o ar vital fique imerso na totalidade do ar. Ó meu Senhor, por favor, lembra-Te agora de todos os meus sacrifícios, e, como és o beneficiário último, por favor, lembra-Te de tudo o que fiz para Ti. Ó meu Senhor, poderoso como o fogo, ser onipotente, ofereço-Te agora todas as reverências e, no solo, caio a Teus pés. Ó meu Senhor, por favor, guia-me no caminho correto, ajudando-me a alcançar-Te, e, como sabes tudo o que fiz no passado, por favor, livra-me das reações de meus pecados pretéritos para que não venham a existir obstáculos em meu progresso.”
    Já comentamos sobre a importância da vida em consciência de Kṛṣṇa cantando e ouvindo sempre sobre suas glórias. A consciência focada em Kṛṣṇa é favorecida com a realização de todos rituais já descritos pois culminam em um senso de estrutura psicológica plena de significado nos momentos finais da vida. Isso pode proporcionar conforto ao saber que os rituais estão sendo realizados de acordo com as tradições e crenças espirituais. Srila Prabhupada comenta a este respeito: “O único propósito da vida é absorver-se plenamente em pensar em Kṛṣṇa e em Sua forma, passatempos, atividades e qualidades. Quem é capaz de pensar em Kṛṣṇa dessa maneira, vinte e quatro horas por dia, já é liberado (svarūpeṇa vyavasthitiḥ). Enquanto os materialistas estão absortos em pensamentos e atividades materiais, os devotos, pelo contrário, vivem absortos em pensar em Kṛṣṇa e nas atividades de Kṛṣṇa. Portanto, eles já estão na plataforma da liberação. Na hora da morte, devemos fixar todo o nosso pensamento em Kṛṣṇa. Dessa maneira, é certo que a pessoa volta ao lar, volta ao Supremo”. Portanto, o rito de antyesti é visto como um meio de libertar a alma das amarras do mundo material. A realização adequada do ritual pode ser entendida como uma passagem tranquila para a próxima vida, trazendo um senso de continuidade e propósito. O envolvimento de familiares no processo dos últimos ritos com certeza caracteriza uma expressão de amor e cuidado. Isso pode facilitar a paz interior da pessoa que está partindo, ao saber que é amada e que sua jornada está cercada por compaixão.
    Para os entes queridos que ficam, resta seguir o caminho para o luto com equilíbrio emocional. Especialistas no estudo do sofrimento concluíram que a perda de um ente querido é uma das maiores dores da humanidade. Recomendo a leitura do livro “Você pode curar seu coração” dos autores Louise Hay e David Kessler. Louise Hay faleceu há pouco tempo com quase 100 anos de idade. Foi orientadora espiritual conhecida pelos seus livros de autoajuda e cura emocional. David Kessler é um especialista em luto e perda. Ele tem ajudado milhares de pessoas a superar o luto e a seguir em frente com esperanças renovadas. A obra “Você pode curar seu coração” é um livro voltado para cura emocional onde os autores propõem uma metodologia com afirmações positivas para transformar o momento da dor e sofrimento. Seguem algumas frases do livro: “A coragem de seguir em frente nasce do reconhecimento da nossa própria força interior; Não tenha medo de se reconstruir, mesmo que isso signifique começar do zero; A dor é temporária, mas o crescimento que ela proporciona é eterno; A solidão pode ser uma aliada no caminho da autodescoberta e da cura; Seu coração merece ser cuidado com a mesma dedicação que você oferece aos outros”.
    Com certeza, não é tarefa fácil confortar as pessoas próximas no momento do luto. Há pessoas que demoram anos para superar a perda. Outro dia uma amiga perdeu a mãe e disse: “Eu sigo no processo de luto da minha mãe querida. A maior dor que já senti na minha vida. Porém, espero em Kṛṣṇa que ela esteja bem e que eu consiga transmutar essa saudade em contentamento pela alegria da partilha nesses 50 anos de vida”. Eu respondi para ela: “É importante você seguir com as fases do luto com leveza e consciência de Kṛṣṇa. Desta forma não vai ter sequelas emocionais no futuro”. Ela respondeu: “Já estou com sequelas, querido, infelizmente; já tive herpes zóster e, agora, estou com alergia emocional por stress. Mas esse luto e o processo todo de doença e desencarne foi algo muito, muito impactante e difícil, meu amigo. O que estou aprendendo é que o emocional, realmente, é uma força da natureza que precisa ser considerada e tratada adequadamente”. Assim como este depoimento, existem inúmeras pessoas com o psicológico abalado devido à perda de um ente querido. Certa vez um discípulo jovem perguntou ao mestre Srila Prabhupada o que ele poderia fazer para superar a perda recente da mãe. Srila Prabhupada aconselhou a leitura do capítulo 2 da Bhagavad Gita, especialmente os textos 12 ao 28. Esta seção trata do conhecimento analítico da matéria e espírito. Estes poucos versos confortam as pessoas que passam pelo luto. Os textos 22 ao 25 dizem o seguinte: “Assim como o indivíduo veste roupas novas, após descartar as que estão velhas; a alma corporificada, da mesma forma, após descartar corpos velhos, veste novos. Armas não cortam a alma; fogo não a queima; água não a molha; vento não a definha. Não se pode cortar, queimar, molhar nem definhar a alma. Ela é eterna, vai a toda parte, apesar do que é estacionária, imóvel e perpétua. Afirma-se que a alma é imanifesta, inconcebível e imutável. Assim, ciente disso, não deverias te lamentar.” Este ritual de leitura breve com certeza nutre a inteligência e facilita a superação emocional causada pela perda. Como forma de demonstrar amor, muitos gestos individuais podem acontecer para honrar o ente querido que partiu. Srila Prabhupada também recomenda o plantio de uma árvore frutífera em homenagem ao ente querido. Recentemente na Índia , especificamente no Rajastão, um pai perdeu a filha adolescente injustamente e como um gesto de amor plantou uma árvore e depois em protesto ele fez o voto de plantar muito mais árvores. E assim, para cada menina que nasce em sua vila os pais fazem o voto de plantar 111 árvores. Seu gesto ressignificou o luto com uma ação ambiental, pois naquela região que era bastante árida começaram a aparecer os corredores ecológicos. Gestos de compaixão em homenagem àqueles que partiram são formas do rito antyesti que leva a um lugar onde os entes queridos expressam seu luto e tristeza de maneira inteligente, ritualística e filantrópica. O ritual serve como uma forma de fechamento, permitindo que as pessoas processem suas emoções com atos de bondade.

Quando uma pessoa se aproxima da morte, recomenda-se que aconteçam doações e presentes em caridade. O planejamento da herança dos bens para deixar aos familiares ou até mesmo para templos, hospitais, escolas ou instituições de caridade deve estar bem definido com antecedência para não causar perturbação mental na hora da passagem. O Mahabharata recomenda que sejam recitados os mil nomes de Vishnu ou Vishnu Sahasra Nama nesta hora. É costume que a pessoa moribunda deva ouvir os nomes do Senhor como o maha mantra Hare Kṛṣṇa. Algumas pessoas colocam tulasi prasadam e caranamrita ou água do Ganges na boca da pessoa. Quando for confirmado que a pessoa tenha realizado a passagem, o corpo poderá ser raspado (opcional), banhado e vestido em roupa limpa, de preferência nova ou de seda. Deve-se aplicar tilaka e assim participar do rito antyesti, que ajuda os familiares a se conectarem com suas raízes culturais e espirituais, proporcionando um senso de pertencimento a algo maior. Isso pode ser reconfortante e estabilizador durante um período de dor.
Embora o foco deste ritual seja a morte, ele também pode incluir momentos de reflexão sobre a vida e os legados deixados pela pessoa falecida. Celebrar a vida da pessoa pode ajudar os entes queridos a encontrar gratidão e alegria nas memórias, ao invés de apenas tristeza e lamentação.
Hoje, pela madrugada, quando eu retornava do templo de Kṛṣṇa com um amigo devoto, ouvimos uma piada sobre a morte. Ele disse que um cidadão na sua passagem da vida para a morte fez uma reclamação ao senhor da morte Yamaraja. “Senhor da morte, porque não me avisou que estavas vindo? Minha vida estava tão boa com casa nova, carros e filhos crescendo bem protegidos?” O senhor da morte respondeu: “Eu avisei que estava chegando nos seus cabelos brancos, na limitação dos seus sentidos da visão, audição e alimentação”. Assim, a morte não pode ser considerada surda ou muda, pois ela manda muitos avisos que nos recusamos a ouvir e ver. Kṛṣṇa confirma isso na Bhagavad Gita (2.4): “As pessoas desprovidas de ātma-tattva não indagam sobre os problemas da vida, pois estão demasiadamente apegadas aos soldados falíveis, tais como o corpo, os filhos e a esposa. Embora tenham bastante experiência, mesmo assim, não veem sua inevitável destruição. ” Srila Prabhupada comenta: ”Este mundo material chama-se mundo da morte e a vida é uma espécie de luta contra a natureza material, que inflige a morte a todos… A pessoa deve analisar o fato de que seu pai ou seu avô já morreram, e de que, portanto, ela também morrerá com certeza, e seus filhos, que serão os futuros pais dos seus netos, também acabarão morrendo do mesmo modo. Ninguém sobreviverá nesta luta contra a natureza material. Embora a história da sociedade humana prove isso definitivamente, as pessoas tolas insistem em afirmar que, com a ajuda da ciência material, serão capazes, no futuro, de viver perpetuamente. Esse pobre fundo de conhecimento expresso pela sociedade humana com certeza é desencaminhador, e ele é patente quando se ignora a constituição da alma viva… Todo o avanço materialista da civilização humana é como os enfeites de um corpo morto. Todos são um corpo morto que oscila apenas por alguns dias, apesar do que toda a energia da vida humana está sendo desperdiçada em decorar este corpo morto. Após mostrar a verdadeira posição das atividades humanas desorientadas, Śukadeva Gosvāmī aponta o verdadeiro dever do ser humano. As pessoas desprovidas de conhecimento de ātma-tattva estão desencaminhadas, mas quem é devoto do Senhor e tem perfeita compreensão acerca do conhecimento transcendental não se deixa confundir.”
Esta compreensão mais racional da vida e da morte permite o entendimento mais profundo para as pessoas que estão lidando com o luto. A compreensão do ritual na visão da Bhagavad Gita de que a morte é uma parte natural do ciclo de vida cria uma perspectiva para ajudar os enlutados a lidar com a vida de uma maneira mais saudável, entendendo que é um processo que faz parte da jornada espiritual. O ritual antyesti, cujo procedimento é descrito pormenorizadamente no manual dos samskaras, serve como um importante mecanismo psicológico, tanto para a pessoa que está partindo quanto para seus entes queridos. Ele facilita a aceitação da morte, promove o fechamento emocional e reforça laços sociais e espirituais, ajudando todos os envolvidos a navegar o complexo processo de luto e transformação espiritual. Através da ritualização, as tradições proporcionam um espaço seguro e respeitoso para expressar e processar emoções, celebrar vidas e enfrentar a inevitável mortalidade.
Embora os samskaras védicos possam ser considerados atividades secundárias porque são descartados quando se pensa além do corpo material e sociedade, eles são importantes porque santificam e preparam o corpo e mente para as atividades primárias do serviço devocional ou a lembrança de Kṛṣṇa para o derradeiro momento final, a morte para nova vida.
Nova Gokula 28 de Maio de 2025.

Hare Krsna! Om Tat Sat!

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