H.D. Goswami responde: maternidade como serviço a Kṛṣṇa

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H.D. Goswami responde: maternidade como serviço a Kṛṣṇa

Transcrição da Entrevista “mães” com HDG

Maria Alice

Vou me apresentar um pouquinho, como eu comentei com o senhor na carta, eu estou buscando servir os devotos da sua sanga, que estão a serviço do senhor, então eu estou fazendo esse seva junto com os devotos no departamento de comunicação do Krishna West, e Shri Damodara me deu a missão nesse mês de maio de elaborar, pensar conteúdos para a gente estar colocando no site, e também na página do Instagram, para estimular as pessoas a pensarem sobre a filosofia, então nós tivemos reuniões todos juntos ali do departamento, e tivemos a ideia de priorizar as datas do calendário do Vaishnava e as datas importantes do nosso território, do Brasil, as datas sociais. Então no mês de maio a gente celebra o dia das mães, e a gente gostaria de fazer uma ponte, entre a tradição e o conhecimento espiritual, e essa data que a sociedade está comemorando, que está sendo dita na televisão, que as pessoas estão pensando sobre, para que a gente possa gerar reflexão e conexão. Então eu escrevi no grupo dos devotos aqui, do conselho, informando a eles dessa nossa reunião, e pedindo sugestões de perguntas, para que eles pudessem trazer, para falar com o senhor. Eu consegui algumas perguntas, a primeira pergunta é da Satyama Devidassi, Ela escreveu o seguinte:

Acharyadeva

Oh, Satyama, Sim. Satyama, muito boa.

Maria Alice

Sim.

Satyama disse: “Acharyadeva, reverências. No nosso cotidiano, por vezes, nos identificamos fortemente com o papel de mãe, e com o Dharma de servir como mãe, sempre oferecendo seus resultados à Krishna.

Como podemos diferenciar a identidade material do ser mãe, do Dharma em Bhakti de estar mãe, como uma Vaishinava? Como podemos fazer a distinção na prática entre a identidade material de mãe e o Dharma de Bhakti de ser mãe? Obrigada, sua serva Satyama.”

Acharyadeva

Seres femininos e masculinos, isso vem do mundo espiritual. Então, o papel de mãe no mundo externo, digamos, é simplesmente uma versão impura do eterno papel de mãe. Então, não são duas coisas diferentes, são a mesma coisa, uma pura e outra ainda com certas impurezas. Então, esse sentimento de mãe, que é natural, porque vem do mundo espiritual, esse sentimento de mãe não precisa ser…

Esse sentimento de mãe aqui no mundo material não precisa ser rejeitado, senão simplesmente precisa ser purificado. Então, vamos ser mãe neste mundo que tem um filho ou filha.

O problema não é esse sentimento de cuidar, de amar, de proteger. O problema é de não amar o suficiente.

Porque se você ama uma pessoa como minha filha ou meu filho, esse pronome possessivo é o problema. Então, uma mãe deve meditar que eu sou o babá de Krishna, que realmente esse filho ou filha pertence a Krishna.

E Krishna me deu o serviço de cuidar do seu filho, entendeu? Então, imagine, por exemplo, se você tem um filho e você paga um babá para cuidar.

E, de repente, você volta a casa e o babá saiu com o filho e roubou o filho de você. Isso é absurdo.

Então, o problema é pensar que é “meu filho”. Mas se você tem esse sentimento maternal, inclusive na cultura védica tem várias pessoas que são vistas como mãe, com a mãe, digamos, biológica, a rainha, a enfermeira, a bhramani, a esposa do guru.

E essas coisas, então, isso não é rejeitar o sentimento de mãe, senão aprimorá-lo e purificá-lo.

Maria Alice

Que lindo. Obrigada, Acharyadeva.

Isso me fez refletir aqui, agora é pessoal da minha parte, que muitas vezes a gente se chama pelo pronome mataji, as mulheres, né? Na tradição.

Sim, tem toda essa questão cultural que a gente…

Acharyadeva

Não, não, isso não tem nada a ver. O fato é, o fato é, que eu acho, primeiro, que isso não é em absoluto cultura védica.

Eu, pessoalmente, pesquisei cada situação, todo o Bhagavatam, onde um homem fala, ou se dirige a uma mulher que não é sua esposa. E nunca dizem isso. Isso não é cultura védica, é cultura hindu. Eu não me inscrevi para o hinduísmo.

Maria Alice

É importante trazer esses pontos, essas reflexões, porque a gente acaba reproduzindo, né? Sem ter profundidade do conhecimento.

Acharyadeva

O que eu quero, a única coisa que eu posso aceitar é um a ciência espiritual. Então, eu vi uma coisa chocante para os devotos, que as mulheres, ninguém esperava isso, que tem nomes. Chocante, né?

Como as mulheres têm nomes. E, nos Vedas, mesmo nos Vedas, os homens se dirijam às mulheres com seus nomes.

Então, isso de que você tem que criar um muro, ou dizer, criando uma ameaça de incesto. Então, o homem tem que pensar que se eu sinto luxúria com essa mulher, isso é uma coisa monstruosa de “desejar minha própria mãe”.

Isso é muito exagerado.

Maria Alice

Sim. Mas o que me fez refletir foi, assim, etimologicamente, no sentido da palavra, a palavra mataji, ela remete a essa questão da mãe, né? E prabhu, que é o artigo que se usa pra homem, ele vem de senhor.

Acharyadeva

Não, não, não.

Maria Alice

É hindu, não tem nada a ver.

Acharyadeva

Não, não. Sânscrito.

Acharyadeva

Se você se dirigia à sua mãe seria “matar”.

Esse ji, prabuji, mataji, isso é hindi. É hindi.

Em sânscrito, não existe.

Eu já pesquisei, eu escrevi, eu fiz uma lista de toda situação no Bhagavatam, dos Vedas, que uma mulher, que um homem se dirige a uma mulher, que não é sua esposa, e simplesmente não dizem mataji. Isso não é cultura védica, isso não está nas escrituras, é invenção.

Maria Alice

Da social, né? E que a gente acaba incorporando.

Nem na Índia existe.

Acharyadeva

Inclusive, eu vi, porque Bengala, West Bengala, tem uma cultura muito idiosincrática. E mesmo os hindus acham estranho isso.

Maria Alice

Que curioso. Muito interessante, né?

E é importante.

Acharyadeva

Isso aqui é mais uma questão de antropologia do que ciência espiritual. O que eu quero pregar na minha vida é uma ciência espiritual.

Não tenho o menor interesse em pregar hinduísmo.

Maria Alice

Esse lugar que o senhor falou sobre exercer a maternidade como se a gente estivesse cuidando, ou cuidando de uma alma de Krishna, né?

Na verdade, a mulher ta exercendo o papel de cuidar dessa alma, dessa criança que está chegando nesse mundo. Então mesmo para aquelas mulheres que não são mães, esse pode ser um lugar de meditação para as mulheres ?

De estar olhando para os outros seres humanos, de um modo geral, com esse sentimento…

Acharyadeva

Acho… Não quero dizer estranho, mas, por exemplo,

Se você me enxerga como seu filho, tudo bem, um pouco excêntrico, mas tudo bem. Respeito o seu sentimento, mas eu acharia um pouco excêntrico.

Então, depende da pessoa. Depende da pessoa, mas…

Eu acho que… Sabe que uma coisa que muitos devotos não aceitam e nunca farão?

A normalidade. Por exemplo, aqui temos um centro, Krishna West, em Flórida, cidade universitária, importante.

E… É como família. Tem devotos, tem devotas, todo mundo feliz, brincando.

É assim, uma coisa… Ninguém está preso nessas coisas de ver as mulheres como mãe… Aqui, honestamente, entre nós, é quase uma piada. Isso porque é interessante que, uma ou outra vez… Isso é um fato interessante. Uma ou outra vez, Prabhupada disse que sim, que você pode chamar as mulheres de Mata ou Mataji, mas, primeiro, que isso não é uma regra Védica em absoluto, não aparece em nenhuma escritura. Tem um homem que fala isso mas ele não é um acharya, ele é um político.

E, segundo, que o Prabhupada nunca fez isso.

Uma ou outra vez, o Prabhupada falou, mas o Prabhupada não fazia. Quando o Prabhupada estava aqui, ele não chamava as devotas por Mataji.

Maria Alice

Chamava pelo nome, né? Pelo nome iniciático.

Acharyadeva

É. É como com esse sotaque brasileiro simpático, Mataji *risos*. Então, é…

Não, Prabhupada nunca fez. Não existe evidência nenhuma que eu vi, há registros de tudo o que o Prabhupada falou e escreveu.

E o Prabhupada nunca, nenhuma vez, chamou uma mulher Mataji.

Maria Alice

Eu acho que o que a gente pode concluir disso, Acharyadeva, veja se eu estou correta no que eu compreendi, é que é uma prática que talvez ela não estimule mesmo, ou não nos conecte à consciência de Krishna, né? É uma mera reprodução social que não tem fundamento com a cultura.

Acharyadeva

Nos conecta a West Bengal.

Maria Alice

Exato. Tá certo. Então, eu vou para a próxima pergunta, tudo bem?

A próxima pergunta, ela vem da Idê, é uma mulher.. que se identificou como Idê. Eu não a conheço pessoalmente, mas ela está no grupo do conselho, e aí eu mandei a caixinha para as pessoas mandarem a pergunta, e ela foi uma das mulheres que mandou uma pergunta, e ela diz:

“Hare Krishna, minha pergunta para o mestre: Mestre, apesar de tentarmos fazer o melhor, terminamos fazendo tudo errado, tentando controlar os nossos filhos. Hoje, os meus filhos inseguros, hoje vejo os meus filhos inseguros e sofrendo. A culpa de fazer doer, eu sinto culpa de fazer doer.

Como lidar com a culpa pelos erros da educação dos filhos?”

Acharyadeva

Primeiro, esse é o caso. Então, com todo respeito para essa indagadora, não sei se o que ela falou, de que é minha culpa, não sei se isso é racional, no sentido que não sei se é realmente o caso, porque, primeiro, que todos somos imperfeitos. E Krishna diz, em Bagua Gita, que todo esforço neste mundo tem alguma falha. Então, por exemplo, eu tive a sorte de ter uma mãe muito boa, muito boa mãe, inteligente, forte, muito boa mãe.

E ela mesmo contava, assim, como rindo de si mesmo, que ela teve muito sucesso no mundo por inteligência, por capacidade, mas ela contava como rindo de si mesmo, que quando, quando teve seu primeiro filho _ela teve quatro filhos e eu sou o segundo_ que ela  estava super preocupada de ser uma boa mãe, fazer tudo direitinho. Então, seu primeiro filho teve uma febre, como um bebê, que é comum entre os bebês, ela ficou em pânico e levou para fora da casa, para o calor baixar. Que, obviamente, não é uma coisa indicada, mas… Então, Krishna diz em Bagua Gita que todo esforço neste mundo tem um erro. Então, quem não lamenta coisas do passado, como você tratou seus pais, como você tratou seus filhos, como você tratou não sei quem. Todo mundo é imperfeito neste mundo. Então, se ela fez uma coisa realmente horrível, então, talvez seja bom lamentar.

Mas não existe mãe perfeita neste mundo, não existe pai perfeito. E o que ela fez é o melhor. E eu acho que a lamentação é como o sal… Bem, na quantidade certa, é bom. Então, lamentação “que eu fiz mal” deve ser um sentimento racional. Por exemplo, se uma mãe foi aconselhada, foi avisada que não faça aquilo, faça assim, e simplesmente ignorou, rejeitou muito bom conselho e fez outra coisa, sim. Então, neste caso, por ser teimosa, talvez ela causou um problema para outra alma. Se foi um caso, simplesmente, de ser um ser humano normal, imperfeito, que às vezes comete erros.

Então, uma certa quantidade de lamentação, erro, vergonha, é bom. Além disso, é irracional e destrutivo.

Maria Alice

É bom porque nos aprimora, né? Nos faz meditar e crescer e aprender com os erros. Obrigada, Acharyadeva.

Acharyadeva

Prazer.

Maria Alice

Bom, temos mais duas aqui. Essa aqui veio da Krishna Bharya DD. Ela disse:  “Qual é o papel da mãe na tradição Gaudhya Vaishnava?

Como ela pode direcionar e ser o alicerce da vida espiritual de seus filhos de outros Devotos? (Lembrando que as nossas mães não são somente as mães biológicas, mas também todas aquelas que nos instruem de alguma forma)”

Então, a pergunta dela é qual é o papel da mãe na tradição Gaudhya Vaishnava? Qual é o papel da mãe como uma devota, né?

Acharyadeva

Isso é muito simples. Isso é muito simples.

O dever de ser uma boa mãe. E hoje em dia tem milhares de livros científicos sobre esse papel de mãe.

Então, é como perguntar como ser um bom médico Gaudhya Vaishnava. Eu acho que uma boa mãe é uma boa mãe.

Não importa a religião. E claro que na nossa tradição temos recursos especiais, porque temos conhecimento, sabemos que o filho é uma alma. Então, minha mãe era muito boa, mas não fez essa curva de me ensinar, “você é uma alma eterna, você tem que se entregar a Deus”.

Não, ela era bem mais secular, digamos.

 Então, e também os filhos têm seu carma, por exemplo, minha mãe, estou muito agradecido que ela deu tanto para mim, mas ela não era uma devota, era honestamente uma trabalhadora. Ela me atendeu muito com a educação, aguentou minhas insanidades de adolescência. Acho que não existe nada mais louco que um garoto adolescente *risos*. Então, interessante que muitos anos atrás, quando criança, voltei para Los Angeles para morar –que sou de Los Angeles– e então meus irmãos, um mais velho, um mais novo, falavam comigo e estava nessa fase de analisar psicologicamente a atuação, assim, a performance dos nossos pais. E você acha que nós somos assim porque nossa mãe favoreceu, não sei o quê…

E eu cortei, eu disse que:  “olha, nós somos adultos, nossos pais nos deram muito amor, deram tudo o que podiam, tudo o que entendiam dar.

E agora somos adultos. Se você não está satisfeito com como você está agora, seja adulto. Parte para um caminho que você goste, seja a pessoa que você quer fazer.”

Então, minha atitude com meus pais, que obviamente já não estão nesse mundo, nesses corpos, é que eles deram muito amor, deram tudo o que podiam. Trabalharam muito duro, eram muito responsáveis, deram tudo o que sabiam dar. E por isso, estou eternamente agradecido e eu não vou jogar a culpa neles por minhas falhas.

Eu acho que isso é uma coisa idiota e até ofensiva. Eu vou assumir minhas imperfeições e eu vou corrigir o que deve ser corrigido e deixar em paz o que não era tão grave. É, temos que ser adultos. Eu acho que se você teve ou tem pais que, apesar de ser muito imperfeitos, deram o que podiam dar, eu acho muito estúpido jogar a culpa neles.Assume. Você tem que assumir a sua vida. Temos o Mahamantra, temos a Misericórdia Prabhupada, temos tanta prasada que o Hare Krishna pode até se matar comendo *risos*.

Então, suicídio por pressão, né?

Maria Alice

Haribol !! É disso mesmo. Eu achei muito bonito isso que o senhor traz no final, Acharyadeva, porque eu estava pensando sobre isso… A gente está falando muito sobre o Dia das Mães. Mas o que é ser um filho ideal, né? Eu acho que o que o senhor traz aí no final dessa reflexão diz um pouco sobre esse nosso papel de responsabilidade como filhos dessas mães. De assumir a consciência, de assumir o nosso lugar na vida. Porque as mães passam por isso também… Coitadas, no Brasil costumamos dizer que: “não importa o que você faça, você vai ser o tema da terapia do seu filho”. Porque as mães sempre fizeram algum erro muito grande, muito catastrófico na vida dos seus filhos, né? Então, eu acho que isso que o senhor traz orienta bastante a gente como filhos. Como ser filhos também.

Acharyadeva

Sim, eu não aguento esse psicologismo, no sentido que a psicologia, como qualquer outra ciência, que pode dar uma força, mas hoje em dia, pelo menos neste país, talvez no Brasil, também entre certos níveis sociais, que todo filho vai para o psicólogo. Era como na minha geração que todo filho ia para o dentista. E agora, não vai para o dentista, vai para o psicólogo. Eu acho que o mundo é pirado mesmo.

Entende? Essa coisa de psicologizar a vida. Éramos felizes e…É como, por exemplo, como os advogados, eles estabeleceram a linguagem em contratos e coisas legais de forma tão complicada, que todo mundo precisa pagar um advogado. Então, eles criam uma cultura que você não pode nem sobreviver sem um advogado. É claro que, em certos casos, uma pessoa, por exemplo, tem casos que a pessoa realmente precisa de uma intervenção médica. Mas nem tudo é o caso e agora tudo é classificado como problema psicológico, técnico. Como, por exemplo, às vezes, quando eu era jovem, eu tinha um pouquinho, como se diz, um mau gênio, mas, às vezes, ficava com um pouco de ira, então, mas eu entendi que é coisa que eu preciso conquistar e… e uma pessoa amadurece! Mas, hoje em dia, não. Tudo tem um termo técnico e tem que ir para o psicólogo e, talvez, tomar comprimidos, uma droga e…sabe que… se você estuda o mundo pré-psicologia, porque em psicologia, o primeiro psicólogo realmente, prominente, era o maluco do Freud, que precisava urgentemente de um bom psicólogo. Mas… Então, antes disso, as pessoas… por exemplo, se você lê novelas do século XIX, ou o meu autor favorito Jane Austen, que foi conhecido, é muito interessante, porque, por um lado, eles não têm essa, assim, chamada ciência de psicologia. Mas, por outro lado, são extremamente conscientes de problemas de personalidade, e de complexos.

Todo mundo entende, eram pessoas inteligentes, mas eles não separaram a psicologia da moralidade. Essa separação foi estabelecida por uma profissão agnóstica de psicologia, então por exemplo, se eu sou uma criança que fica com raiva, isso não é só um problema psicológico, é também um assunto moral, porque tem um dever moral de tratar outras pessoas bem, de não gritar, de não perder a cabeça. E, na última instância, você vê isso muito bem na literatura do tempo, e literatura que era considerada a 200 anos atrás, 120 anos… Que a literatura era considerada pelos leitores contemporâneos como muito realista. Então, eles entenderam se eu tenho problemas de raiva, ou fico com medo de coisas que não são perigosas, ou qualquer coisa, que eu não estou cumprindo o meu dever com Deus, porque eu tenho um dever para com Deus, de me controlar, de me comportar bem. E mesmo Aristóteles, no seu livro sobre ética, e bom comportamento, ele diz isso.  É com sadhana e ética, que você pratica as boas qualidades. Então, se eu sinto essa responsabilidade com Deus, de me comportar bem, de não ficar estúpido, não ficar assim, em pânico, com raiva, de simplesmente ser uma pessoa equilibrada, é um dever moral, é um dever com Deus. Não é só uma coisa para botar um comprimido na boca.

Então, nesse sentido, as pessoas estão ficando muito fracas, porque o que foi eliminado é esse dever, obrigação de praticar virtudes, de praticar autocontrole, de me comportar bem, então as pessoas não sentem dever moral e até espiritual de fazer isso, só tomar pastilha. Se alguém me critica por meu comportamento estranho, essa pessoa está “me envergonhando”, uma pessoa se comporta como ladrão, e outra pessoa diz que “você é ladrão” essa pessoa estaria “abusando”. Como se fosse um tipo de determinismo psicológico com pela pessoa dizer sobre esse comportamento. Vamos dizer que uma pessoa te trata mal de forma inapropriada e você chama a atenção da pessoa, mas por você não entender sobre a infância, por não entender como o que aconteceu na vida dessa pessoa, então denunciar esse comportamento inapropriado seria “um determinismo”. Como por exemplo, se alguém te empurra e você cai, você não escolheu cair, foi determinado pelas leis físicas, então as pessoas se desculpam, mas pesam que não tem o dever de se comportar bem, com o pretexto da infância, ou meus pais, ou não sei o que… É uma sociedade bem maluca, a psicologia faz bem, mas também está estragando a sociedade. Bom, mas além disso, realmente não tenho uma opinião sobre.

Maria Alice

Acharyadeva muito obrigada, é muito bonito isso que o senhor disse, eu peço licença aqui desse espaço coletivo da nossa entrevista, que eu estou vindo representando, né, a sanga, mas essa última fala do senhor me toca muito profundamente em coisas que estou passando na minha vida, então obrigada.

Eu tenho uma última pergunta, que não sei se fui ousada, mas fui inspirada, vamos colocar assim… Eu estava conversando com uma amiga que não é devota, que não conhece a sanga, não conhece o movimento da consciência de Krishna, e eu estava muito empolgada com a ideia de poder falar com o senhor, de fazer essa entrevista, e eu estava pensando sobre, né, e ela me viu nessa empolgação, e eu contei para ela que ia fazer essa entrevista com você. E aí nessa conversa com ela, eu falei: “o que você perguntaria para uma pessoa que tem um profundo conhecimento espiritual sobre maternidade?” E ela não sabe nada da nossa tradição, então, é uma pessoa com um ponto de vista fora do movimento. Porque quando a gente está dentro, entra em contato com o conhecimento da consciência de Krishna, a gente já tem um direcionamento ali das perguntas, o que perguntar para você, então, perguntar para uma pessoa que está totalmente a parte da tradição eu achei que seria uma pergunta interessante para a gente trazer. Até porque a proposta é do Krishna West, é a gente dialogar com as pessoas que ainda não chegaram à consciência de Krishna, então, essa minha amiga me trouxe a seguinte pergunta –eu achei que foi a mais ousada aqui da nossa entrevista, por isso que eu deixei para o final–: “Crianças têm liberdade? Quais são os caminhos saudáveis para educar uma criança sem ser castradora, principalmente em termos de religiosidade e espiritualidade?” Ela quis dizer assim, se os pais são religiosos, qual é a liberdade que essa criança tem de fazer escolhas? Ela realmente é livre ou ela não tem liberdade enquanto ela é criança? Essa foi a pergunta dela.

Acharyadeva

Primeira coisa, uma criança não é um adulto. Existe um motivo objetivo pelo qual, por exemplo, uma criança não pode tirar carteira de motorista.

E por que não? Porque uma criança não tem condições de dirigir um carro. E além disso, por exemplo, vamos dizer um pai ou mãe consciente de Krishna, a sociedade secular diz, “ah, você acredita em Krishna, isso é sua opinião, você não deve impor sua opinião na criança”, perante a lei, perante a justiça, pode ser o caso que religião tenha o mesmo status, mas o status legal não é necessariamente o status metafísico, ou status filosófico. Por exemplo, legalmente, você pode pregar na praça que a lua é feita de queijo mineiro e você tem direito legal de pregar na praça da sua cidade, acho que você teria mais sucesso em Minas Gerais pregando sobre queijo *risos*, mas assim, poder você pode… Eu acho que o existencialismo, no sentido de –apesar das estupidezas de pessoas como Sartre– enfatiza a nossa autonomia, que claro que a gente precisa de ajuda, mas também temos a autonomia de buscar ajuda apropriada e de assumir nossa própria vida e não culpar outras pessoas. E sobre essa ideia original da mãe, eu acho que se uma devota faz o melhor que pode com sinceridade e com boa vontade e com amor, imperfeição é inevitável. Ninguém pode cobrar a perfeição de uma pessoa.

Maria Alice

Sim, sobre essa questão de ser mãe, a gente está sempre focando na mulher e tudo mais, mas qual seria o papel do homem quando uma mulher está gerando uma vida? Qual o papel de ser pai? Tudo bem que a gente vai ter mês dos pais e a gente vai falar mais sobre os pais, mas qual seria o papel do companheiro de uma mulher no exercício de ser mãe?

Acharyadeva

O papel do homem de não ser um idiota, quer dizer, é, assim, no voto de casamento, que o problema deu para a gente, o homem tem que assumir. O homem que quer os privilégios e prazeres e associação íntima com a mulher, mas não é responsável, se paga, ele é simplesmente ladrão. Quer dizer, porque a mulher oferece algo, assim, carinho, beleza e de trazer um filho para o mundo, isso se paga!

Um homem que quer os prazeres e privilégios de associação íntima com a mulher sem dedicar sua vida a ela, é simplesmente um patífe, uma pessoa inútil e baixa. Então, no voto de casamento, o homem promete assumir mesmo, ser responsável, ele é responsável de dar uma boa vida para a mulher, se necessário, ele dá sua vida para a mulher e para seus filhos. Isso para não falar de trabalhar duro, de oferecer tudo o que a mulher precisa e que os filhos precisam e o dever da mulher é ser uma boa esposa, boa mãe.

Maria Alice

Eu acho muito bonito, eu estava lendo os 10 ensinamentos de Pralada Maharaj, naquele livrinho de bolso de Srila Prabhupada e eu acho que é o ensinamento 10 que ele faz um comentário muito interessante sobre a concepção,  ele fala algo assim: “não é a toa, não é uma, não é uma mera mescla de células, para uma vida vir ao mundo, para uma vida vir ao útero de uma mulher, é a presença do próprio Senhor que concede. De todas as almas, Ele próprio vem e autoriza essa concepção. Isso traz um significado muito profundo para o ato de gerar uma vida, né?

Então, eu sinto que é um ato mútuo, né? Como Prabhupada diz neste comentário, não é uma mescla de células, é uma concepção de uma alma autorizada pelo próprio Deus, pelo próprio Krishna.

Então, quando nasce uma mãe, nasce um pai junto, né? Não é?

É um ato completamente sagrado.

Não é algo assim aleatório.

Acharyadeva

Sim. Hoje em dia, por exemplo, as pessoas procriam, têm um filho por sexo, quer dizer, querendo ou não querendo.

E depois, toda a ciência mostra que, por exemplo, se a mulher abandona o marido, se o marido abandona a mulher, que o filho vai sofrer. Tem crianças de famílias divididas que ainda têm boas-vidas, mas a porcentagem é muito mais provável que com um lar assim quebrado, é muito mais provável que o filho venha a cometer suicídio, filho ou filha que pode acabar na cadeia, que pode vir a ser pobre. Então, para seu próprio prazer animal, as pessoas sacrificam seu filho ou filha.

Então, estão vivendo numa sociedade de bestas, de duas patas. São animais, nem merecem o título do ser humano. O homem deve dar sua vida para sua família e a mulher dá sua vida para a família, isso é uma vida civilizada.

E a mulher não deve aceitar menos. Nem o homem.

É, estamos tentando reviver o que se chama vida humana. Eu fui muito afortunado no bairro onde eu cresci, não tinha divórcio, não conhecia nenhuma criança da minha idade que tinha pai divorciado. Não existia.

Maria Alice

Hoje em dia é muito comum, né, Acharyadeva? No Brasil, as famílias estão totalmente desestruturadas.

E eu acho que isso é uma desconexão, uma perda da nossa sociedade em relação ao conhecimento espiritual. Porque hoje em dia, o mais comum é você não ter um pai e a mãe juntos e presente, né?

Acharyadeva

É isso aí… São como animais.

Maria Alice

Obrigada, Acharyadeva, mais uma vez, foi enriquecedor.

Acharyadeva

Sim. Qualquer coisa, é só dar um grito.

Maria Alice

Então, vai vir mais convites!

Acharyadeva

Vai ser um prazer.

Hare Krishna.

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