
Por: Kṛṣṇa–Bhāryā Dāsī (HDG)
Sītādevi e o Senhor Ramachandra encarnam no mundo material como maryādā avataras, as encarnações da moral e dos bons costumes, representando os papéis de Rei e Rainha perfeitos. Maryādā significa limites, regras e conduta ética. Assim, o Senhor Ramachandra também é chamado de Maryādā Purushottam. Sītā possuía, em igualdade com o Senhor Rama, as mesmas qualidades transcendentais: forma, beleza, comportamento, idade e natureza. Na verdade, ambos eram Lakshmi e Narayana.
Somente a filosofia não é suficiente para gerar o desejo por Krishna. Precisamos ouvir Suas narrativas para nos aproximarmos de Sua verdade absoluta, de Seus nomes, formas e qualidades. Deus, como pessoa, tem uma natureza íntima com Seus associados, e Suas histórias são o que mais cativam o coração humano. Os Vedas propõem justamente isso: que o ser humano se encante tanto com as histórias de Deus a ponto de desejar participar dessas līlās.
A narrativa do Ramayana tem esse poder de nos encantar pela história de Sītā e Rama, por suas escolhas, seu comportamento e pelos detalhes de suas atividades. Neste artigo, veremos um pouco da incrível história de Dharmarani Sītā, a Rainha do Dharma.
Sītādevi demonstra equanimidade diante de todas as suas provações
Mesmo diante da notícia do exílio de 14 anos na floresta ao lado do Senhor Rama; mesmo quando é raptada e aprisionada por Ravana por um ano; mesmo quando, ao reencontrar-se com o Senhor Rama após ser libertada, decide entrar no fogo; e mesmo durante o segundo exílio, grávida, Sītā mantém equanimidade e harmonia em sua conduta.
Ela era uma dhīra: sábia, paciente, corajosa, firme, estável e sóbria. Sua postura não vacila mesmo diante das maiores provações.
A conexão de Sītā com a natureza
Sītā aparece neste mundo material através da natureza: ela surge espontaneamente da terra enquanto o rei de Mithilā, Janaka, arava o solo. Por isso, ele lhe dá o nome de Sītā, que significa “sulco”, e a cria como filha.
Seu aparecimento revela sua afinidade com a natureza e com a vida que brota por força própria — no caso de Sītādevī, por sua força divina. De modo semelhante, Śrīmatī Rādhārāṇī aparece em uma flor de lótus no rio Yamunā. Na tradição védica, a terra e os rios sagrados são representados por deidades femininas, como Bhūmi, Yamunā, Gaṅgā e Sarasvatī. Por isso, Sītā também é chamada de Bhūmijā, filha de Bhūmi.
Sītā passa grande parte de sua vida imersa na espontaneidade da floresta, tanto no primeiro exílio com o Senhor Rama quanto no segundo, quando cria seus filhos junto à natureza, longe do luxo do palácio.
“Viajar na floresta não vai me cansar; seguindo-te, eu sentirei a mesma alegria como caminhando nos jardins ou me divertindo contigo nos bosques. Ó Rama, em tua companhia, as urzes espinhosas como kusha, sarpat e shara me parecerão tão suaves quanto pele de veado…”
Quando Sītādevī foi raptada por Ravana, ela se comportou de forma corajosa e inteligente, pedindo socorro a todos os seus aliados na natureza: rios, divindades da floresta e ao rei dos pássaros, Jatāyu.
“Eu invoco as árvores de Janasthana e as florescentes Karnikaras, para que possam dizer a Rama rapidamente que Sita foi levada por Ravana! Eu apelo ao rio Godaveri […] para informar a Rama que Ravana roubou Sita!”
“Ó nobre Jatayu, vê como eu estou sendo impiedosamente levada pelo perverso rei dos asuras […] leva as notícias do meu sequestro para Rama e Lakshmana e lhes conta tudo, não omitindo nada.”
A própria natureza parece entristecer-se ao testemunhar o rapto de Sītā:
“As árvores […] pareciam sussurrar ‘Não temas!’, e os lagos […] pareciam estar chorando por Maithili como por uma amiga. […] O sol glorioso, oprimido pela tristeza, perdeu seu brilho e se tornou apenas disco pálido.”
Sītā em Lanka: coragem, castidade e fidelidade inabalável
Ao chegar em Lanka, Ravana acreditava que poderia conquistar Sītā com palavras e sedução. Mas ela, sempre destemida e plenamente confiante na proteção de Śrī Rama, respondeu com firmeza, deixando claro que sua fidelidade jamais seria quebrada.
“O rei Dasaratha […] teve um filho, Raghava. […] É ele, aquele herói […] que, com seu irmão Lakshmana, vai te privar da tua vida!”
Tomado pela fúria, Ravana dá a ela doze meses para que se renda e a envia ao bosque de árvores de ashoka, cercada por mulheres cruéis e horrendas. Contudo, ao longo desse período de cativeiro, enquanto Ravana se torna cada vez mais irracional em sua luxúria frustrada, Sītā se torna cada vez mais forte, determinada e fixa em sua confiança de que Śrī Rama viria libertá-la.
Ela permaneceu fiel ao seu voto, recusando-se a entrar no palácio de Ravana ou desfrutar das luxuosas instalações de Lanka. Não se deixou forçar por ninguém. Mesmo em sua fase mais difícil, jamais perdeu a coragem e nunca se submeteu a ninguém além de Rama.
Por essa grandeza, Sītā conquista o respeito, a confiança e a empatia de outras mulheres mantidas cativas por Ravana. Entre elas, destaca-se Trijaṭā, que se torna sua amiga e orienta as demais guardas a pedirem perdão a Sītā.
O segundo exílio e o preço do dharma
Na parte final de sua história neste mundo, Sītā retorna novamente ao ambiente da floresta. Pelo preço do dharma, Ramachandra foi obrigado a banir Sītādevī, que estava grávida, confiando-a aos cuidados de Vālmīki Muni. Foi ali que ela deu à luz os gêmeos Lava e Kuśa.
Esse episódio ocorreu porque Rama, ao ouvir comentários que colocavam em dúvida o caráter de Sītādevī, decidiu colocar seu dever de rei acima de sua vida pessoal, para que não houvesse suspeitas sobre a honra da rainha.
No segundo exílio, Sītā assume completamente o controle de seu próprio destino. Ela cria os filhos no āśrama de Vālmīki, sem a ajuda do pai, mas sem nunca incitar os filhos contra Śrī Rama. Ela compreende o peso do dever de seu marido como rei de Ayodhyā.
Ao final de sua missão, após cumprir todos os seus deveres, Sītā invoca sua mãe Bhūmi. Se sempre foi fiel ao marido e cumpriu seus deveres, que a Terra a recebesse novamente. Então, Bhūmi surge sentada em um trono que emerge da terra. Sītā senta-se ao seu lado, flores caem do céu, e ela retorna ao interior da Terra, encerrando sua līlā neste mundo material.
Dessa vez, Sītā prova sua castidade não entrando no fogo, mas retornando à Terra. Era a única maneira de encerrar definitivamente toda suspeita sobre seu caráter.
Esse foi o preço do dharma: para mostrar ao povo que era um rei forte, não dominado pela luxúria e sempre fiel ao dever, o Senhor Ramachandra teve de se separar de sua amada esposa Sītā e de seus filhos. Com isso, o reino de Ayodhyā foi abalado pela tristeza.
Concluímos, assim, que este mundo é um lugar de sofrimento. Nem mesmo Deus e Sua Consorte manifestaram felicidade permanente aqui. Sua plena felicidade reencontra-se no mundo espiritual.
Reflexões sobre o segundo exílio de Sītā
1. As consequências desastrosas da fofoca e da calúnia
Devido aos comentários maliciosos de um homem que poderia manchar a honra de Sītādevī, uma Dharmarani teve de ser banida de Ayodhyā e criar seus filhos sem o pai.
2. No mundo material não existe “felizes para sempre”
O mundo material não é um conto de fadas. Se o Ramayana terminasse com Sītā e Rama vivendo felizes materialmente até o fim, isso poderia estimular as almas condicionadas a se acomodarem aqui, em vez de buscarem a realização espiritual.
3. No mundo espiritual, Eles nunca estiveram separados
A separação de Sītā e Rama no Ramayana serve para nos instruir sobre a importância de seguir os valores morais e espirituais.
4. A pureza provém do bom uso do livre-arbítrio
O fato de Ravana ter raptado Sītādevī à força e mantido-a prisioneira por um ano jamais diminuiu sua pureza.
“Aqui está Vaidehi, ó Rama, não há pecado nela! […] Nem por palavra, sentimento ou olhar a tua consorte adorável mostrou-se indigna […] Ela é pura e sem mácula…”
Rama também afirma que sabia da pureza de Sītā e que a prova de fogo era necessária para o bem da ordem social e para que não recaíssem dúvidas sobre sua honra.
5. Se Deus é Deus, Ele ou Ela pode passar por qualquer prova
Como foi demonstrado no teste do fogo, Sītādevī provou ser a personificação da pureza e da castidade. Assim como Krishna revelou Sua forma universal a Arjuna na Bhagavad-gītā, Sītā também demonstrou sua natureza divina por meio de sua firmeza e pureza transcendentais.
A fonte do refúgio de Sītā
Sempre pensando em Rama dentro de seu coração, Sītā constantemente busca reunir-se com Ele. Seu compromisso com o Senhor e sua constante meditação n’Ele a protegem e lhe dão forças para resistir às muitas ofertas e tentações de Ravana.
“Eu te reduziria a cinzas pelo poder de meu ascetismo e de minha castidade”, disse Sita a Ravana, “mas não tenho a ordem de meu senhor, tampouco desejo desperdiçar meus méritos ascéticos com alguém desprezível como tu.”
A resistência de Sītā à obsessão de Ravana drenou os poderes que ele havia adquirido por austeridades. Após sua morte, até Mandodari reconhece que Ravana foi destruído por ter ofendido mãe Sītā.
Quando Hanuman se oferece para levá-la sobre suas costas por cima do oceano, Sītā, sempre consciente da conduta apropriada, responde que não poderia tocar voluntariamente o corpo de outro homem que não Rama, e que também não desejava diminuir a glória de Rama permitindo que outro a resgatasse. Preferia esperar confiantemente por seu Senhor.
Maharaja Daśaratha, seu sogro, certa vez lhe disse:
“Tua notável conduta te garantirá um lugar na história como a mulher mais gloriosa que o mundo já viu.”
Conclusão
A história de Sītādevī não é apenas uma narrativa de sofrimento, fidelidade e coragem. É também uma revelação profunda da força espiritual, da pureza, da inteligência, da firmeza moral e da relação íntima entre a alma e o Supremo.
Sītā é a Rainha do Dharma. Sua vida ensina equanimidade nas provações, fidelidade ao Senhor, firmeza diante da injustiça, respeito à conduta apropriada e confiança inabalável na proteção divina.
Ao contemplar sua história, somos convidados não apenas a admirar sua grandeza, mas também a refletir sobre como trazer seus ensinamentos para a nossa própria vida espiritual.
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