Sītā Ṭhākurāṇī

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Sītā Ṭhākurāṇī

Por: Kṛṣṇa-bhāryā Dāsī (HDG)

A esposa de Advaita Acarya, Sītā Ṭhākurāṇī, foi uma mulher que, assim como seu marido, teve uma vida longa. A literatura indica que, após casar-se com Sita, Advaita mudou-se para Shantipur. A maioria das biografias de Chaitanya Mahaprabhu relata que ela esteve presente nas cerimônias de seu nascimento e ela, inclusive, foi a responsável por lhe dar o apelido de “Nimai”. Por causa do intenso amor de Sita Devi pelo menino, Saci Mata, mãe de Chaitanya, a escolheu como a primeira pessoa a adorar Mahaprabhu durante qualquer cerimônia auspiciosa[1].

Breve Biografia de Sītā Ṭhākurāṇī

Sītā Ṭhākurāṇī é proveniente de uma aldeia chamada Nārāyaṇapura, perto de Saptagrāma, no estado de Bengala Ocidental, na Índia, onde viviam muitos brâmanes piedosos. Seu pai Nṛsiṁha Bhādurī era um desses brâmanes. Ele tinha duas filhas: Sītā Ṭhākurāṇī e Śrī Ṭhākurāṇī. Sītā, a irmã mais velha, era uma encarnação de Yogamāyā[2];[3]; sua irmã mais nova, Śrī, era uma expansão dela. A mãe delas faleceu quando elas ainda eram jovens.

Srimati Sītā Ṭhākurāṇī casou-se com Advaita Acarya Prabhu e foi morar em Santipura. Ela teve três filhos: Achyutananda[4], Krishna Mishra e Gopala Mishra eram devotos de Mahaprabhu. Sri Chaitanya Mahaprabhu e Nityananda Prabhu visitavam Advaita Acharya e Sītā Ṭhākurāṇī em Santipur. Eles realizavam festivais de sankirtan, e quando o Senhor Chaitanya Mahaprabhu se mudou para Jagannatha Puri, suas visitas a Santipur foram mais regulares. Sītā Ṭhākurāṇī preparava a comida favorita de Sri Chaitanya Mahaprabhu e oferecia prasada para eles. Ela amava Sri Chaitanya Mahaprabhu como seu filho e Ele a amava como Sua mãe.

Srimati Sītā Ṭhākurāṇī estava sempre absorta no amor paternal (vatsalya-rasa) por Sri Chaitanya. Quando Ele nasceu em Mayapur, Srimati Sītā trouxe uma cesta cheia de roupas, ornamentos, roupas de seda para crianças, joias e muito mais presentes ao recém-nascido, o bebê dourado, trouxe também capim fresco, açafrão, kumkum e sândalo. O nome ‘Nimai’ foi dado ao Senhor Chaitanya Mahaprabhu por ela, devido a todas as propriedades antissépticas da árvore neem e também porque o Ele nasceu debaixo de uma árvore dessa espécie, Sītā Ṭhākurāṇī deu ao Senhor o nome Nimai. Ele era chamado por esse nome, embora Seu nome verdadeiro fosse Visvambhara.

O Casamento de Sītā Ṭhākurāṇī com Advaita Ācārya

Para entendermos a importância de Sita Thakurani no movimento do Senhor Chaitanya, precisamos entender primeiramente quem foi seu esposo. No Prema Vilasa, bibliografia que narra os passatempos dos principais associados de Chaitanya Mahaprabhu, é narrado que Advaita Ācārya veio a este mundo, como uma encarnação de Harihara, que é a forma combinada de Mahā-Viṣṇu e Sadāśiva.

Harihara nutre grande compaixão pelas almas condicionadas de Kali-yuga e submeteu-se a severas austeridades durante setecentos anos para obter uma audiência com o Senhor Supremo, Kṛṣṇa, a fim de orar pela libertação delas[5]. O Senhor Kṛṣṇa respondeu: “Ó Harihara, simplesmente por cantar o Meu santo nome, alguém será libertado em Kali-yuga. Quero que você apareça na Terra e liberte as almas caídas na era de Kali. Você pode Me pedir para aparecer lá também, cantando o Meu santo nome. Então, Eu aparecerei, juntamente com Meu pai, Minha mãe e Meus associados. Atraído pelo seu amor e devoção, certamente virei ao mundo na companhia de Baladeva.”

Logo depois, Harihara nasceu neste mundo com sua família como Advaita Ācārya, com o objetivo de trazer o Senhor Kṛṣṇa a este mundo, Advaita Ācārya adorou-O com fé e devoção inabaláveis, para dissipar o sofrimento das pessoas.

Nṛsiṁha Bhādurī, pai de Sītā Ṭhākurāṇī, teve um sonho no qual viu suas duas filhas casadas com Śrī Advaita Prabhu. Ele viu Advaita Prabhu como Sadāśiva e suas filhas como Deusas, e isso o encheu de alegria. Então, Nṛsiṁha Bhādurī decidiu levar suas filhas a Śāntipur. Assim, os três pegaram um barco até Phuliyā, onde encontraram um veterano Vaishnava chamado Śyāmadāsa. Nṛsiṁha Bhādurī contou a esse Vaisnava sobre seu sonho e Śyāmadāsa concordou em ajudá-lo a organizar o casamento.

Śyāmadāsa foi até Advaita Ācārya e perguntou-lhe se ele desejava se casar. Advaita Prabhu respondeu que era um homem idoso; e não imagina quem poderia lhe conceder sua filha em casamento. Então, Śyāmadāsa narrou a Advaita Prabhu sobre Nṛsiṁha Bhādurī e seu sonho. Ao compreender a situação, Advaita Ācārya concordou com alegria em se casar com as duas jovens. Em seguida, Śyāmadāsa levou Nṛsiṁha Bhādurī a Śāntipura e fez as apresentações. Assim que Advaita Ācārya viu Sītā, reconheceu-a como Sua eterna consorte. Então, em um dia auspicioso, Nṛsiṁha Bhādurī entregou suas duas filhas em casamento a Advaita Prabhu.

O Prema Vilasa também narra que o casamento se realizou em Phuliyā, e todas as despesas foram custeadas pelos irmãos Hiraṇya e Govardhana, que eram discípulos de Yadunandana Ācārya (não se pode afirmar com certeza que se tratava de Yadunandana, autor de Karnanada, discípulo de Hemalata Thakurani, ou se era a referência de outro Vaishnava). Graças às suas doações, a cerimônia de casamento foi celebrada com grande alegria e em grande estilo.

No dia seguinte ao casamento, é de costume que a noiva sirva uma refeição aos brāhmaṇas e aos outros convidados. Quando todos se sentaram para comer, Sītādevī pegou um prato e começou a servir os convidados, que estavam sentados em fileiras. De repente, um vento forte arrancou o véu de sua cabeça. Ela não conseguiu segurar o tecido para colocá-lo novamente na cabeça, pois ambas as mãos estavam ocupadas. Nesse instante, para surpresa de todos, Sītādevī manifestou mais dois braços e recolocou o sári sobre a cabeça. Todos os presentes testemunharam espantados essa forma divina de Sītādevī. Em seguida, ela rapidamente ocultou seus dois braços adicionais.

Śrī Advaita Prabhu continuou a viver feliz em Śāntipur com suas duas esposas. Antes do casamento, Advaita Ācārya vivia em Navadvīpa, mas, após o casamento, estabeleceu-se em Śāntipura. Tanto Sītā quanto Śrīdevī receberam iniciação de Śrī Advaita Prabhu.

Segundo o Prema Vilasa, Sītā deu à luz cinco filhos, e Śrīdevī deu à luz um filho. Acyutānanda era o filho mais velho de Advaita Ācārya e uma encarnação de Gaṇeśa, bem como da gopī chamada Acyutā. O jovem Śyāmādāsa era uma manifestação de Acyutānanda; a Mãe Sītā tratava-o como seu próprio filho e o amamentava. O jovem Śyāmādāsa teve a boa fortuna de contemplar Sītā como uma deusa de quatro braços. Kṛṣṇa dāsa Miśra, Gopāla, Balarāma, Svarūpa e Jagadīśa eram os nomes dos outros cinco filhos de Śrī Advaita. Kṛṣṇa dāsa era uma encarnação de Kārtikeya, e seus quatro irmãos — Gopāla, Balarāma, Svarūpa e Jagadīśa — eram suas expansões.

O Relacionamento de Sītā Ṭhākurāṇī com Chaitanya Mahaprabhu

Srimati Sītā Ṭhākurāṇī desempenhou um papel importante nos primeiros passatempos de Sri Chaitanya Mahaprabhu. Ela estava presente na cerimônia de Seu nascimento, presenteou-o com muitos itens e recebeu muitos presentes de Jagannath Mishra e Sachi Devi (pais de Chaitanya). Sita Thakurani trouxe vestidos, ornamentos, roupas de seda, joias, capim fresco, açafrão, kum-kum e sândalo para Sri Chaitanya Mahaprabhu quando ele apareceu em Mayapur. O Śrī Caitanya-caritāmṛta, Ādi-līlā, 113, descreve que “Havia também unhas de tigre incrustadas em ouro, adornos de cintura feitos de seda e renda, ornamentos para as mãos e as pernas, sáris de seda com belas estamparias, e uma roupa de criança, também feita de seda. Muitas outras riquezas, incluindo moedas de ouro e prata, foram também presenteadas à criança.”

O belíssimo nome Nimai foi dado ao Senhor Chaitanya Mahaprabhu por Srimati Sita Thakurani, conforme descrito no Śrī Caitanya-caritāmṛta, Ādi-līlā, 117: “ Ela abençoou a criança recém-nascida, colocando grama fresca e arroz sobre Sua cabeça e dizendo: “Que sejas abençoado com uma longa duração de vida.” Porém, temendo fantasmas e bruxas, deu à criança o nome de Nimāi”. Srimati Sita Thakurani ensinou Sachhi Mata a cuidar de Mahaprabhu. Ela estava sempre absorta em Vatsalya rasa (amor parental) por Chaitany Mahaprabhu.

Sachimata escolheu Sita Thakurani como a primeira pessoa a adorar Nimai. Srimati Sita Thakurani costumava cozinhar comidas deliciosas para Sri Chaitanya Mahaprabhu e oferecer-lhes prasada (alimento sagrado). Ela sempre amou Sri Chaitanya Mahaprabhu como a um filho, e Ele sempre a amou como a uma mãe.

Os discípulos de Sītā Ṭhākurāṇī

O discipulado de Sita Thakurani, é corroborado na respeitada compilação chamada Gaudiya-vaisnava abhidhana e no Sita-caritra de Lokanatha Dasa. O Prema Vilasa narra uma história de duas discípulas, em especial, Jalaṅgī e Nandinī.

Segundo o Prema-viläsa, elas eram suas servas, ambas iniciadas por Sītādevī. Os vaikuntha-svarupas de Jalaṅgī e Nandinī são os conhecidos porteiros Jaya e Vijaya (Gaura-ganodesa-dipika texto 89)[6]. Nandinī escolheu viver com Sītā e servi-la, enquanto Jalaṅgī foi para uma floresta densa, repleta de animais ferozes, para realizar austeridades.

Narra-se no Prema Vilasa que, certo dia, o rei de Bengala estava caçando naquela floresta e deparou-se com Jalaṅgī. Ele sentiu atração por ela e ao vê-la sentada em um local isolado, vestida como uma asceta, o rei desejou possuí-la, mesmo à força. No entanto, quando o rei se aproximou de Jalaṅgī, ela imediatamente transformou-se em um homem. Espantado e perplexo, o rei perguntou: “Ó asceta, você é homem ou mulher?” Jalaṅgī respondeu: “Sou mulher, mas, para um homem, apareço como homem e, para uma mulher, como mulher. Aqueles que têm o coração puro sempre me veem como mulher e dirigem-se a mim como ‘Mãe’. Mas, se alguém olha para mim com más intenções, apareço para essa pessoa como homem.” O rei compreendeu seu erro e pediu perdão a Jalaṅgī. Arrependido, o rei construiu um palácio para ela naquela floresta, local que ficou conhecido como Jalaṅgī-toṭā.

No Gaudiya Vaishnava Abhidhana*, 1243, narra-se a mesma história, porém com alguns detalhes diferentes. Descreve-se que o rei ao tentar estuprá-la (as palavras utilizadas são dharma-nāśa-karā, aquele/aquilo que destrói o dharma” ou “destruidor da ordem moral/religiosa), surpreendeu-se ao descobrir que ela havia se transformado em um homem. O rei, atônito, perguntou-lhe se ela era homem ou mulher. Ela respondeu de forma enigmática: “As mulheres veem uma mulher; os homens veem um homem. Mas, em momento algum, fui um homem”.

Então, o rei permaneceu enviou uma mulher para examinar Jalaṅgī e foi informado de que ela era, de fato, uma mulher; porém, ao enviar um homem, recebeu a informação de que ela era um homem. O rei, espantado, percebeu que Jalaṅgī possuía poderes extraordinários; então, prostrou-se a seus pés e pediu perdão. Depois de ela o perdoar e abençoar, ele construiu uma grande residência para ela na floresta, local que ficou conhecido como Jangali.[7]


[1] Ver Sri Caitanya-caritamrta, Adi-lila 13.111-118.

[2] Shri Gaura Ganoddesha Dipika , texto 86. “A potência yogamaya do Senhor Supremo apareceu nos passatempos do Senhor Chaitanya como Shri Sita-devi, a esposa do Senhor Advaita Acharya”.

[3] Prema Vila, cap. 24.

[4] Shri Gaura Ganoddesha Dipika, texto 88. “Alguns dizem que Achyutananda foi a encarnação de Karttikeya, e outros, versados ​​em práticas transcendentais, afirmam que ele é a encarnação de Achyuta-gopi. Ambas as visões estão corretas, pois tanto Karttikeya quanto Achyuta-gopi estavam presentes no corpo de Achyutananda. Além disso, alguns devotos dizem que Shri Krishna Mishra também foi uma encarnação de Karttikeya.”

[5] Prema Vilasa, de Nityananda Dasa, cap. 24.

[6] Gaura-ganodesa-dipika texto 89. “As devotas Nandini e Jangali, que eram associadas do Senhor Chaitanya, haviam sido anteriormente Jaya e Vijaya nos passatempos do Senhor Krishna.”

[7] Gaudiya Vaishnava Abhidhana*, 1243. Aparentemente, outras fontes indicam que Jangalipriya era o nome de um discípulo homem de Sita que adotou o nome feminino, após a iniciação. O travestismo na tradição vaishnava não é algo desconhecido, embora não seja considerado ortodoxo. Aqueles que seguem essa tradição atípica recebem a denominação de *Sakhi bhekhi*. Lalita Sakhi, discípulo de Charan Das Babaji, é um exemplo relativamente recente de um homem que considerava vestir-se como uma *gopi*, uma parte essencial de sua vida devocional. A afirmação inequívoca de Jangali de que “em momento algum fui um homem” poderia não passar da firme convicção de possuir uma identidade feminina eterna em relação ao eterno masculino, Krishna (Women Saints in Gaudiya Vaishnavism – Jagadananda Das).

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